Imagem capa - Resenha do disco
Resenhas de Discos

Resenha do disco "Hermitage", da banda Moonspell

Eremita é aquele que vive isolado, seja por penitência religiosa, vontade de se afastar da sociedade ou apego à natureza. Em pleno século XXI, entretanto, a sensação é que nunca estamos verdadeiramente sozinhos.


O frenesi da vida não permite o escapismo. Querendo ou não, vivemos em meio ao caos da nossa conectada e tecnológica sociedade. É aí que entra “Hermitage”, novo disco dos portugueses do Moonspell.


O termo se refere aos lugares em que esses nômades escapistas do passado se refugiavam. A mensagem principal do disco, porém, não é escapar, e sim olhar para dentro e entender o que está errado. Para que não seja necessária essa fuga urbana.

 

A letra de “The Greater Good”, que inicia o tracklist, já deixa clara a proposta da banda:  Que tal procurarmos uma nova terra / Sem hino, sem governo / por que vivemos com tanto medo?

 

Mais para o meio, a faixa que dá nome ao disco traz uma possível solução: o retorno da inocência. O problema é que talvez seja inocente pensar que a humanidade retornará a esse estágio primitivo.


A capa de “Hermitage” vale também a reflexão. Vemos um cidadão caminhando para longe de uma cidade ultramoderna aparentemente desolada por um apocalipse, com nuvens que encobrem o sol no estilo Matrix.


Talvez seja sim a hora de abandonar. Mas não a cidade literalmente, e sim um estilo de vida cada vez mais autodestrutivo e implacável.


Todo esse sentimento deságua em “The Hermit Saints”. Aqui, o vocalista Fernando Ribeiro desabafa: O silêncio foi quebrado / o nó está muito apertado / O deserto me obriga a fazer o que é certo.




 

Musicalmente, os portugueses apresentaram seu doom metal calibrado, com passagens mais rápidas e solos, trazendo dinamismo. A voz de Fernando, ora calma e límpida, ora rasgada e impiedosa, assegura uma certa agonia para o ouvinte.


Nunca se sabe em que ponto da música a calmaria será destroçada por um verso agressivo e desesperado. Essa sensação dialoga com as questões existenciais que a banda quer passar. Ficar fazendo mais do mesmo, esperando na calmaria, não adianta.


Por fim, “Hermitage” é mais um passo dado pelo Moonspell na direção da diversificação de temas na sua discografia. Se antes vampiros e magia reinavam, no disco anterior – “1755” – o desespero realista de abordar o famoso terremoto de Lisboa apareceu.


Agora, a sensação é que a banda tomou gosto por temas mais sociais e realistas. Por enquanto, eles acertaram a mão. Resta saber quais serão os próximos chamados da banda.


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