18/01/2024 às 12:57 Entrevistas

Entrevista com Alf Cantalice (Headspawn)

19
5min de leitura

A banda Headspawn nasceu em João Pessoa, capital da Paraíba, e tem no forte discurso político seu ponto forte. Conversei com Alf Cantalice, responsável pelos vocais da banda, e o resultado você encontra abaixo!

A Headspawn vem do Nordeste - de João Pessoa, Paraíba. O que o Brasil precisa saber da cena do metal por aí?

Existe uma cena resiliente e muito produtiva no Nordeste, otimizando o recorte, podemos afirmar que a Paraíba é bastante fértil no campo artístico, mesmo diante de um total descaso por parte das políticas públicas. O metal sempre foi muito presente e se manteve vivo por aqui, o público tem se renovado, novas bandas têm surgido com ótimas produções e bandas como Crypta, Project 46, Angra, entre outras, têm passado por aqui e podem oferecer um testemunho semelhante.

O EP "Pretty Ugly People" aborda diversos temas pesados como esquizofrenia e política. Poderia contar quais foram as principais motivações na hora de compor? Alguma letra veio de algo pessoal?

Todo o conteúdo que produzimos faz parte de nossa visão do mundo, a forma que recortamos a realidade e a processamos. As músicas foram compostas durante o governo da extrema-direita aqui no Brasil, todos os absurdos oriundos da diretriz fascista foram repugnantes demais para que deixássemos de falar sobre aquele momento. O PUP é um escárnio do ponto de vista daquelas pessoas que foram oprimidas e se sentiram revoltadas. Com exceção de Voices, todas são músicas voltadas aos acontecimentos daquele período.

A capa mostra uma figura feminina desfigurada. Como esse conceito dialoga com a mensagem do EP?

As músicas falam sobre a escalada fascista no Brasil, período em que pudemos testemunhar milhões de brasileiros externar, sem qualquer constrangimento, toda a feiura do racismo, da homofobia, da xenofobia. As máscaras caíram e tudo ficou escancarado. A figura da mulher desfigurada é justamente o contraste entre o belo e o grotesco, é um escárnio acerca daquelas pessoas vaidosas que gastam fortunas para se manter em determinado padrão, mas são seres humanos horrendos. A mensagem “Pretty Ugly People” é exatamente isso.

O Ep foi gravado no formato ao vivo. Quais as vantagens e desvantagens desse tipo de gravação?

Na verdade, são dois EP’s. O Pretty Ugly People é um trabalho de estúdio e o Pretty Ugly People Live é que foi gravado ao vivo. A única razão pela qual fizemos esse material ao vivo, foi a quarentena. Não era possível fazer shows, as condições de segurança ainda eram muito precárias e nós não queríamos ficar parados logo após termos lançado um bom material. Então resolvemos fazer essa live session e lançar com um material videográfico. Naquele momento, a vantagem foi mostrar ao público como nós soamos ao vivo, já que até então era uma incógnita. Até hoje não consigo enxergar uma desvantagem, acho que se você se preparar bastante se torna algo muito natural e simples de se fazer, o resultado foi bom.

O álbum "Parasites" veio na sequência. Podemos apontar evoluções em relação ao que vocês entregaram no EP anterior?

A composição do Parasites aconteceu durante os primeiros lançamentos do PUP. Construir as músicas do EP nos deu uma noção maior do que poderíamos fazer em seguida, isso deu muita fluidez para todo o processo, fora que o acúmulo de horas de ensaio nos maturou bastante. Passando tanto tempo juntos, os arranjos apareceram mais facilmente e as músicas começaram a ganhar mais camadas. O conceito do álbum permitiu um conteúdo mais denso e complexo por parte das letras também.

Logo de cara, somos impactados pela arte da capa, que mostra bebês zumbis! De onde surgiu essa ideia?

Continuamos com a ideia do contraste, temos um bicho-preguiça de expressão amigável e pacífica enquanto um caos apocalíptico queima ao seu redor. Na ideia original eram homúnculos, como diabretes, imps, devorando a preguiça, os bebês foi um toque genial de Wildner. A simbologia da coisa era mostrar nossa relação com o mundo, as atividades antrópicas mostradas como um ato de parasitismo, a destruição, a extinção definitiva de qualquer tipo de sustentabilidade.

"Sinking Jetsam" e Fili Caatinga" têm influências nordestinas na sonoridade. Como foi compor essas músicas utilizando esses recursos? Quais artistas do Nordeste vocês mais curtem?

A influência de ritmos nordestinos está presente desde o PUP. O break de Satan Goss é um maracatu que evolui pra uma versão funkeada. O nordeste é muitíssimo rico de ritmos, temos côco, baião, xote, xaxado, maracatu, frevo, ciranda, axé, forró e muitos outros menos famosos. Não temos um compromisso de ter que colocar tudo isso nas nossas composições, é algo que acontece naturalmente, por conhecermos esses ritmos e sabermos desfrutar bem daquilo que eles nos proporcionam. Artistas com Zé Ramalho, Alceu Valença, Moraes Moreira, Margareth Menezes, Caetano Velozo, Geraldo Azevedo, Sivuca, Hermeto Pascoal, Gilberto Gil, entre tantos outros... faziam parte da trilha sonora que nos cercava enquanto crescíamos. Eu não saberia mensurar o quanto ou exatamente com o que cada um deles nos influenciou, mas pode ter certeza que estiveram presentes.

O single "Voices" é o preferido dos fãs no Spotify com mais de 30 mil plays. A que você atribuiu essa preferência?

Acredito que seja uma música com um percurso de transições mais suaves, a calmaria do começo, a forma que os riffs vão chegando, a expressão melódica do vocal, tudo isso parece tornar essa música mais fácil de ouvir. O público que gosta mais de metal, geralmente, chega até nós por outras músicas, mas outra parte do público geralmente chega por meio de Voices. Acho que o fato de ser uma música com um bom videoclipe pode ter influenciado de alguma forma.

Como é a dinâmica interna da banda? As tarefas são divididas entre vocês?

A única possibilidade de sermos mais Do-it-yourself é se nos tornarmos Luthier e especialistas em eletrônica. Nós acumulamos bastante atividades entre nós; somos nosso próprio empresário, produtor, gerente de turnê, designer gráfico, moviemaker etc. No que diz respeito à produção artística é um trabalho coletivo, estamos sempre nos reunindo e decidindo tudo juntos. Óbvio que há uma ordem cronológica, geralmente a ideia surge dos riffs da guitarra, da melodia, vai ganhando camadas conforme vamos mostrando as coisas um pro outro, mas em resumo é um trabalho coletivo bem distribuído.

Como foi tocar com o Project 46, Odeon e Electric Mob em setembro? Como foi esse encontro entre as bandas?

Já havíamos tido um contato virtual previamente com alguns membros do Project46, fizemos uma live com Baffu, tivemos uma reunião mas ainda não nos conhecíamos pessoalmente. A gente sabe da relevância que eles possuem no cenário nacional, temos muito respeito, foram muito gentis e atenciosos conosco, os shows foram excelentes, foi uma noite muito agradável. O Project46 conquistou um espaço muito importante e trocar ideia com eles foi, certamente, uma experiência de muito aprendizado.



18 Jan 2024

Entrevista com Alf Cantalice (Headspawn)

Comentar
Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
Copiar URL

Tags

headspawn

Quem viu também curtiu

23 de Jun de 2021

“Foi o Sid Vicious quem me inspirou a criar o Helloween e o power metal!” – Entrevista com Michael Weikath (Helloween)

20 de Abr de 2022

Entrevista: Timo Tolkki (ex-Stratovarius) fala sobre "Visions", Andre Matos e mais

20 de Ago de 2022

Entrevista com Júlio Ettore - Rock Nacional 1980