20/04/2023 às 21:22

Entrevista com Neil Turbin (ex-Anthrax)

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6min de leitura

Neil Turbin foi o primeiro vocalista do Anthrax e gravou o álbum “Fistful of Metal”. Ele vem ao Brasil agora celebrar os 40 anos do disco. Conversei com ele sobre isso e muito mais. Boa leitura!

Você vem ao Brasil comemorar os 40 anos do álbum “Fistful of Metal”, do Anthrax. Como surgiu a ideia de criar essa turnê e quanto é importante para você celebrar esse disco?

Foi uma ideia coletiva da produtora Som do Darma e minha. Eu deveria ter visitado o Brasil em 2014 para uma turnê com o Artillery e Onslaught. Por alguma razão, o Onslaught não conseguiu ir e todos os shows caíram. Eu nunca visitei o Brasil e estou tocando agora com músicos brasileiros nessa série de shows. Estou trabalhando com pessoas que não são narcisistas. São autênticas e boas de trabalhar. São músicos dedicados e apaixonados. É muito melhor ter pessoas com essa mentalidade e fé. Tem gente que só quer saber de apunhalar nas costas. Essa é minha história! [risos]. Estou animado com a comemoração dos 40 anos do ‘Fistful of Metal’. Acho que ninguém reconhece tanto. Uma banda como o Anthrax tem outras ideias. Eles levam rappers para o palco. Essa é a coisa deles. Convidar pessoas que não tem nada a ver com o disco. Eles estão com sucesso financeiro. Bandas como o Helloween convidam os cantores que já passaram pela banda para shows. Eles não tentam cancelar esses caras. Eles celebram a própria história. O Metallica fez algo assim no aniversário de 30 anos, chamaram ex-integrantes. Isso é para os fãs e não para o ego das bandas. Eles não iriam me pagar de qualquer forma, porque nunca o fizeram no passado. Não trabalho de graça e gosto de trabalhar em um ambiente que não seja tóxico. Gosto de pessoas criativas e produtivas, que sejam legais.

Vocês vão tocar com uma banda formada por brasileiros. Como será isso?

Vamos tocar com músicos brasileiros para um público maravilhoso. Vamos tocar três datas. Dia 21 no Correria Music Bar em Vila Velha/ES; dia 22 no CDM Metal Fest em Campo do Meio/MG e dia 23 na Jai Club em São Paulo/SP. A banda será formada pelos guitarristas Jaeder Menossi e Thales Statkevicius, o baixista Bill Martins e o baterista Rafael Gonçalves. Todos os três shows de Neil Turbin no Brasil contarão com o Hammathaz como banda convidada. O Anthrax nunca tocou essas músicas que tocaremos no Brasil. Eles não tocarão. O Joey Belladonna não canta no mesmo registro que eu. Ele não canta ‘Death From Above’. Teremos novos arranjos também. No Anthrax, eles tocam covers, originais e rap. Esse é o lance deles. Eu sou um cantor de thrash metal. Canto rock clássico e tudo mais. Essas são as coisas que faço. Você tem que ser igual falou o Michael Jordan. Você pode perder jogadores na sua equipe, mas tem que se virar. A equipe é que ganha, não uma pessoa sozinha. A equipe que vou levar para o Brasil é ótima. Em São Paulo, terão também bandas como Hammathaz, Warsickness e Selvageria.

Qual será o setlist?

Não vamos tocar só o ‘Fistful of Metal’. Não vamos tocar na íntegra e na ordem porque assim seria chato. Com o tempo, as coisas amadurecem. O que aconteceu com o Anthrax lá atrás não foi uma fórmula. Era juntar as coisas e fazer acontecer. Infelizmente, eles não mudam o tom para os vocalistas. Tinha o John Bush cantando, ele tem um tipo de vocal. Tem o Belladonna, com outro. E eu com outro. Você precisa compor para seu vocalista. Se você tem o King Diamond, ele tem um amplo espectro de voz, mas seria bizarro compor hits para o Barry White. Tem que ter a combinação certa. Nós escolhemos bem as músicas e fomos meticulosos. Algumas músicas do álbum precisam de mais energia e mudar um pouco. Outros não precisam mudar nada. Agora, você vai reconhecer as músicas, não vamos mudar tanto assim. Não é algo drástico. Sempre terão pessoas que vão falar que não está exatamente igual. Não estamos preocupados porque quem reclama vai reclamar de qualquer forma. Eu toquei essas músicas na turnê com o Anthrax em 1984. Vamos tocar agora da maneira que compus e não como tentaram modificar do que escrevi. Não estou preocupado com o que o Anthrax faz. Eles fazem o que quiserem e está ok. Não será a mesma coisa. Pode ser semelhante, mas não igual.

Como foi gravar o álbum em 1983?

Para quem quiser comemorar essa data comigo, será uma ótima oportunidade. Ainda posso alcançar as notas. Estou melhor do que quando gravei aos 18 anos de idade. Fui para Nova York gravar por três dias. Eu fui o único membro da banda que ficou o tempo todo lá. Fiz um city tour lá. Eles me deram dois dias e meio para finalizar. O baixista teve muito mais tempo para gravar coisas simples. Me deram uma janela muito curta. Eu estava experimentando. Tive outra banda antes do Anthrax, mas essa foi a minha primeira gravação mais profissional, com equipamentos profissionais. O orçamento era maior. Estamos animados de comemorar essa data agora. Na bateria, temos o Rafael Gonçalves. Já falamos pelo telefone e ele é um cara muito legal. Temos diferenças de língua, mas temos membros da equipe que falam inglês. Queria poder falar português melhor! Nosso baixista será o Bill Martins, do Hellish War. Os dois guitarristas serão o Jaeder Menossi e o Thales Statkevicius. Será um equilíbrio entre thrash e power. Nós somos melódicos, progressivos e pesados. Essa combinação de músicos será ótima. Vamos tocar no Brasil com Edu Falaschi e The Troops of Doom, estamos muito animados. Não estamos só apoiados no passado. Vamos tocar coisas da minha carreira solo. Vamos dar aos fãs o que eles querem. Não vão precisar ouvir coisas que eles não querem. Respeito os rappers e outros artistas de soul etc.

Como é sua formação musical e seu estilo de dar aulas?

Eu estudei por conta própria, não fui para escolas de músicas. Aprendi da minha forma. Também dou aulas de canto, mas minha abordagem não é tradicional. Tenho ideias diferentes. Quando você está em turnês, vê que as coisas não funcionam da maneira que os livros ensinam. Você não consegue oito horas de sono, descansar e comer direito. Precisa adaptar para funcionar. Existem vários cenários e muitas coisas podem acontecer. Coisas quebram ou você não consegue ouvir o baterista. Isso tudo já aconteceu. Quando dou aulas, falo sobre essas coisas. E se você ficar doente da garganta e não consegue falar direito? Você pode sobrecarregar também sua voz. Limão pode ajudar, mas é preciso conhecer técnicas. É mais profundo do que conhecer escalas e ir para universidades. Teoria musical é uma coisa, mas eles não te ensinam sobre esses outros aspectos. Também gosto de gravar e tocar guitarra. Canto muitas coisas de soul.

O que você acha de o Anthrax estar no “Big 4”?

Esse conceito do “Big 4” é estranho, sempre achei que fosse uma conferência ou algo de marketing. Tem o Metallica e tudo mais. Acho que a mídia comprou isso, mas existem mais do que quatro bandas de thrash metal tanto nos EUA quanto fora. Isso tomou uma proporção errada e é ofensivo que algumas bandas tenham ficado de fora. Temos Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax, mas cadê o Exodus, Exciter e Raven? Tem muitas que estão por aí na Bay Area e tal. Tem o Overkill, que eram mais heavy no começo. Bandas evoluem e mudam. Tivemos uma onda e depois veio outra, igual aconteceu com o punk. Começou com Ramones etc, depois veio algo mais hardcore como Agnostic Front. Tem a Loudness, que é bem speed e melodic. Eu diria que dizer que quatro pessoas só inventaram a torta de maçã é complicado. Muita gente por aí certamente tem macieiras e conseguem fazer. Quem inventou? Poucas pessoas levaram crédito. Houve muito marketing e muitas pessoas acreditaram nisso. O próprio Sepultura é importante.

20 Abr 2023

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