24/12/2022 às 12:46 Entrevistas

Entrevista: Hérica Marmo e Luiz André Alzer (Titãs)

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Hérica Marmo e Luiz André Alzer são autores do livro “A vida até parece uma festa: A história completa dos Titãs”, que ganhou versão atualizada recentemente. Conversei com a dupla sobre diversas curiosidades presentes nos capítulos e também sobre as expectativas para a turnê de reencontro. Boa leitura!

Alguma história curiosa sobre as votações que os Titãs sempre fazem para decidir entre eles quais músicas entrarão ou não nos discos?

Hérica: A democracia titânica é uma das coisas mais interessantes que descobrimos e descrevemos em vários momentos do livro. Não adiantava a maioria ganhar. Até hoje acontece isso. Eles tinham que convencer quem perdeu de que aquela era a melhor escolha. Tem vários momentos que se votam em quem vai cantar, quantas músicas cada vocalista vai ter.

No caso de ‘Polícia’, do ‘Cabeça Dinossauro’, ela quase ficou de fora, porque era uma música de um compositor só. Isso era uma coisa complicada de digerir. Eram oito compositores. Óbvio que a qualidade sempre vencia, mas tinha essa preocupação com o equilíbrio. Ela é só do Tony Bellotto, e a princípio ele queria que o Paulo Miklos cantasse. Só que o Paulo preferiu ‘Estado Violência’, que era só do Charles Gavin. Por fim, o Sérgio Britto, que não estava satisfeito com as músicas que ele ia cantar, descobriu ‘Polícia’ e resolveu entrar nessa.

Luiz André: Essa questão do número de vocalistas sempre foi importante para os Titãs. Eram cinco que cantavam na formação clássica. Tinha que ter uma divisão. Tem uma música que foi feita antes do primeiro disco e que só foi entrar no ‘Cabeça’, que foi a ‘Bichos Escrotos’. É uma das primeiras músicas dos Titãs, mas foi preterida por conta de ter palavrões. Na época do primeiro disco, em 1984, ainda existia um resquício de ditadura. Ficou de lado no segundo disco também e entrou no ‘Cabeça’ com um selo de proibição para a rádio.

Como a ditadura afetou a banda?

Luiz André: A ditadura influenciou diretamente na prisão do Arnaldo Antunes. Em período de democracia, ele jamais teria sido condenado e preso. Talvez autuado. Ele ficou quase um mês em cana acusado de traficante. Absolutamente fora da curva. Esse é o maior exemplo de como a ditadura interferiu na trajetória dos Titãs. Isso ajudou no ‘Cabeça Dinossauro’, que foi motivado por essa prisão.

Agora, lembro de uma música chamada ‘Charles Chacal’ que não entrou no disco por conta da ditadura. Ela nunca foi efetivamente gravada. Falava sobre um assassino sanguinário. Depois, acabou que a banda não quis botar. A gravadora recomendou que não entrasse porque era pesada e falava de assassino. O repertório do primeiro disco é bem plural e tem até música brega!

A decisão de montar repertório de disco era muito importante para eles. Tanto que os Titãs não gravaram um compacto anterior ao primeiro álbum, como todas as outras bandas fizeram. Elas eram testadas no compacto. Se desse certo, aí vinha o LP. Ou até dois compactos antes. Se emplacasse, eles tinham o passaporte para o LP. Os Titãs não aceitaram e bateram o pé. Eles diziam que o compacto não representava a diversidade da banda. Acho que foi o único caso de vir o LP de cara.

Como foi aquela história do Arnaldo Antunes sair do palco durante ‘Igreja’?

Hérica: A música entrou no disco porque eles acharam que tinha tudo a ver com o conceito do disco. Essa questão do Arnaldo Antunes é porque ele dizia que não se sentia à vontade para dizer ‘Eu não gosto de Cristo’ da mesma maneira que não se sentia à vontade para dizer ‘Eu gosto de Cristo’. Ele achava que era um assunto desconfortável, mas ele aceitou que a banda gravasse.

Como ele não se sentia confortável, saía do palco toda vez que eles tocavam. O curioso é que ele passou a não sair do palco depois que o Caetano Veloso gravou esse hit com os Titãs em um especial da Globo. A banda diz que depois do aval do Caetano que ele mudou, mas para ele a história foi outra! [risos]. Ele diz que já estava cansado de ser chamado de carola e não ser bem interpretado no protesto dele. Não fazia mais sentido.

Luiz André: ‘Igreja’ foi a última música a entrar no ‘Cabeça Dinossauro’. Essa música é do Nando Reis e ele estava meio travado. Não estava conseguindo compor e ela entrou aos 44 do segundo tempo.

Qual era a importância da Malu Mader, esposa do Tony Bellotto, para o contexto dos Titãs?

Hérica: O engraçado é que na época que ela conheceu o Tony, tinha saído uma declaração dela na imprensa que os Titãs tinham detestado. Ela tinha dado uma entrevista e aí saiu uma frase que ela dizia algo do tipo: ‘Não gosto e não conheço, mas pode dizer que tenho todos os discos’. Ela não sabia que essa declaração tinha saído. Quando ela conheceu o Tony, a Malu realmente conhecia pouco os Titãs e nem sabia que ele fazia parte da banda. Ela e apaixonou antes de saber.

Aí, quando eles começaram a namorar, ela teve que se explicar! O Charles Gavin foi cobrar: ‘Agora, você gosta da gente, né?’. Aí que ela foi saber a história! Ela teve que conquistar um por um e fez isso rapidamente, porque ela é ótima! Um amor! Ela virou muito fã dos Titãs. Ela deixou de fazer teatro para acompanhar a banda. Até hoje, ela está em todos os momentos que pode. Assim como as outras esposas. Ela ia nas excursões para o Nordeste e Sul.

Teve um episódio forte que eles estavam em Florianópolis para gravar o ‘MTV Ao Vivo’, em 2005. Foram dois shows e na véspera do primeiro, ela passou mal e precisou ser internada. Isso repercutiu muito, já que ela é muito próxima. O primeiro show foi tenso demais. No segundo dia, ela foi transferida para o Rio de Janeiro e recebeu alta. Foi outro show. Eles usaram no DVD basicamente imagens do segundo dia, que foi mais aliviado.

Luiz André: Nesse episódio de Floripa, foi a primeira vez que o Nando Reis falou com o Tony Bellotto depois de sair da banda. Já tinha 4 anos aí. Ele nunca mais tinha falado. Loucura, né? O Nando gostava muito da Malu e ele ligou para o produtor dos Titãs e pediu para falar com o Tony. Ele disse palavras carinhosas e tentou levantar o astral. O Tony se emocionou muito com a história. Isso foi um ponto que, de certa forma, abreviou a reaproximação deles. Esse episódio deixou o Nando sensibilizado. No livro, contamos os bastidores dessa ligação.

A Malu é presente na carreira dos Titãs, mas também foi importante para nosso livro porque contribuiu com muitas fotos exclusivas. Ela fotografava tudo! Fomos na casa dela e eram dezenas de álbuns. Ela cedeu para o livro. Para nós, era importante esse tipo de material mais inédito, para os fãs curtirem momentos de lazer deles. Ela ajudou muito!

O maior sucesso dos Titãs no Spotify é o hit “Epitáfio”, chegando a quase 100 milhões de reproduções. Alguma história sobre essa composição?

Hérica: Nós acompanhamos de perto ela se transformando em um megahit. Quando começamos as entrevistas da primeira versão do livro, eles tinham acabado de lançar o álbum ‘A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana’. Eles não estavam trabalhando ‘Epitáfio’, porque iam trabalhar a faixa-título. Já era uma música impactante logo de cara.

Para muita gente, essa música bateu por conta da morte do Marcelo Fromer aos 39 anos. A letra fala sobre aproveitar a vida. Só que eles fizeram a música antes. O Marcelo inclusive ajudou o Sérgio Britto a chegar naquele refrão.

Luiz André: Ela não foi escolhida a princípio por conta da morte do Marcelo Fromer. Essa música fala sobre morte e veio essa decisão em conjunto dos Titãs e da gravadora de não parecer que estavam explorando a morte do Marcelo com a música. Eles sabiam que era boa, mas seguraram. O Caetano Veloso ficou chapado quando ouviu ‘Epitáfio’ pela primeira vez! Ele viu que tinha vocação para o sucesso. Eles não esperavam o sucesso, mas nunca podem tirar o repertório agora!

Como era a relação dos Titãs com essa galera da MPB?

Luiz André: Eles sempre transitaram muito bem com o pessoal da MPB. Principalmente com o Caetano Veloso e com o Gilberto Gil. O Caetano é um super fã. O disco que fez eles ficarem mais próximos desse pessoal foi o ‘Õ Blésq Blom’. Eles se aproximaram da Marisa Monte também. Foi uma fase que viraram os queridinhos da MPB. Eles cantaram com o Milton Nascimento no Rock in Rio.

Hérica: A banda irmã é o Paralamas do Sucesso. Irmã e rival! Essa rivalidade foi sendo diluída com os anos, mas no começo era uma rivalidade sadia. Quem ia gravar o primeiro acústico? Quem ia ganhar o primeiro disco de ouro? Essas coisas. Um ficava de olho no outro. Depois, começaram a excursionar juntos e se dão muito bem.

Luiz André: Uma curiosidade sobre nosso trabalho é que sempre buscamos contar os detalhes. Nessa parte nova do livro, quando o Mário Fabre foi fazer o teste para baterista, o Charles Gavin, que tinha acabado de sair, foi uma espécie de coach! Ele deu um treinamento sobre como ele deveria se comportar. Não só tocando, mas o que deveria vestir para conquistar os Titãs? É muito doido isso! Uma das dicas foi para ele se vestir de preto, porque ia impressionar. Quando entrevistamos o Fabre para a atualização do livro, perguntamos se ele tinha ido de preto mesmo. Ele falou que sim, mas foi de tênis vermelho! [risos].

O Charles Gavin tem uma memória muito privilegiada. Acho que é porque ele nunca usou drogas. O único da banda que nunca usou. Ele não bebia até os 30 anos! Isso ajudou a memória a ficar fresca! [risos].

Como era essa situação de ele ser o único que não usava drogas?

Hérica: Nunca rolou nenhum conflito nesse sentido. Cada um foi mudando de comportamento e deixando de usar drogas no seu tempo. O Tony Bellotto quando o filho nasceu. O Sérgio Britto teve desmaios no palco e resolveu mudar. O Branco Mello teve problema de coração e precisou operar. Isso nunca foi um problema no relacionamento.

Luiz André: A droga de certa forma fazia parte da cultura dos anos 1980. Os artistas de forma geral consumiam muita droga. A ditadura tinha acabado e afrouxou a repressão. Agora, o Charles nunca curtiu. Foi por opção mesmo. Ele foi beber vinho aos 30 anos! O único conflito foi quando o Paulo Miklos quebrou o camarim e eles quase acabaram com a banda. Mas isso teve final feliz, porque ele decidiu acabar com as drogas depois disso.

Antes ou depois dos shows, eles fazem brindes com champagne. É uma tradição da banda. Quando rolou esse problema com o Paulo, os Titãs se perguntaram se era legal continuar essa tradição. O Paulo estava em tratamento e disse que não ia ter recaída. Será que precisariam parar com os brindes? Ele disse que podiam continuar sim com os brindes, que ele usaria cerveja sem álcool e ia brindar junto.

Como vocês avaliam essa turnê de reencontro dos Titãs? Será que rola gravação de músicas inéditas ou algum tipo de registro ao vivo?

Hérica: Acho que vai ser histórico! Pena que estou em Portugal, senão eu ia assistir uns três shows pelo menos! Eles vão se divertir muito. Agora, sobre gravar coisas inéditas, são os Titãs, né? Tudo pode acontecer! [risos]. Em termos de composição nova, eles vão ficar muito tempo juntos e vão ensaiar. O Arnaldo Antunes saiu dos Titãs há 30 anos e continuou compondo com eles. Enfim, o Charles Gavin e o Paulo Miklos podem ter alguma coisa para apresentar. O Nando Reis é mais difícil, porque ele não vinha compondo com a banda, mas vai que ele tem alguma coisa que ele ache a cara da banda e apresente.

Luiz André: O show de 30 anos eles gravaram e nunca saiu em lugar nenhum! Eles vão se divertir acima de tudo. Agora, estamos no mundo do streaming. Acho quase inevitável que não vire, no mínimo, um especial para alguma plataforma ou canal. Os ingressos se esgotaram em duas horas! Parecia Rock in Rio! Acho que isso vai provocar um especial ou documentário.

24 Dez 2022

Entrevista: Hérica Marmo e Luiz André Alzer (Titãs)

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