19/07/2023 às 19:17 Entrevistas

Entrevista com Rex Carroll (Whitecross, Fierce Heart) – Parte 1

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23min de leitura

Rex Caroll é conhecido por ser o maior guitar hero do mundo do rock cristão. Seu trabalho pode ser ouvido principalmente nas bandas Whitecross e Fierce Heart – que são pérolas do estilo!

Conversei com Rex Caroll sobre sua carreira, mas o papo foi tão longo que resolvi dividir em duas partes! Segue abaixo a Parte 1, que vai até o álbum “In The Kingdom”, do Whitecross. Boa leitura!

Quando começou seu interesse pela música e pela guitarra?

Quando eu tinha 5 anos, minha mãe me colocou em uma aula de piano. Fiquei fascinado! As duas mãos trabalhando juntas era algo muito legal de ver. Na escola, ganhei um álbum dos Beatles de Natal! Lembro de voltar da escola todo dia e ouvir várias vezes! Era o álbum ‘Something New’. Eu ficava ouvindo a linha de voz e me imaginando no lugar do cantor. Se tinha um solo de guitarra, pensava: ‘E se eu pudesse tocar isso?’.

Nessa época, gostava muito de bateria. Só que não sabia que dava para comprar um kit completo. Eu só tinha a caixa, contratempo e outras peças. Eu conseguia uma peça por vez. Não sabia que dava pra comprar tudo de uma vez! [risos].

Esse lance do piano durou uns três anos e na adolescência toquei mais uns três anos. Hoje, não me considero tecladista, mas entendo como funciona. Agora, na escola, começaram a recrutar alunos para a orquestra! Tentei tocar violino e parecia perfeito nas minhas mãos. Parecia a coisa certa e investi nesse instrumento.

Toquei violino por nove anos! Fiz aulas e tudo mais. Nos meus últimos anos de escola, toquei baixo acústico. Foram muitos instrumentos! E quase sempre de corda. Eu ganhei um violão de aniversário nessa época e já sabia como encontrar as notas. Ganhei também um livro de estudo e virei autodidata por uns meses.

As pessoas dizem que se você começa no violão, vai criar calos até a pele ficar grossa. No meu caso, nunca passei por isso. Acho que foi porque o violino de certa forma se parece. Se vocês são fãs de Yngwie Malmsteen e coisas neoclássicas, é interessante pensar isso. Muitas coisas do violino se traduzem na guitarra.

O fato de você tocar violino influenciou no seu estilo como guitarrista?

Sim, com certeza. Não tenho mais livros sobre violino comigo. Mas tenho livros de guitarra com partituras de obras de violino. As notas são parecidas de certa forma. Estudando essas melodias me marcou muito. Não sei bem como o cérebro funciona, mas minha ideia de como música deve funcionar surgiu aí. Definitivamente, me influenciou muito.

Na época do ensino médio, descobri o rádio e amigos me mostraram bandas como Kiss e Deep Purple, que é uma das minhas favoritas. Led Zeppelin e Black Sabbath também curti muito. Agora, Pink Floyd não gostava tanto. Era algo para ficar doidão e eu nunca fiz parte dessa cultura às drogas. Sempre me afastei disso.

Quais foram os guitar heros e bandas que você tocava mais no começo dos seus estudos?

Led Zeppelin, Bad Company e Deep Purple sempre foram bandas que curti. No caso do Deep Purple, eles têm uma pegada mais europeia e não faziam um som americano. Quando eu tinha quinze anos, me orgulhava de conseguir tocar Black Sabbath na guitarra! Não gostava muito de UFO, mas mais tarde passei a adorar e ouço até hoje.

Agora, sobre guitar heros, adorava Johnny Winter, Robin Trower, Frank Marirno e Ritchie Blackmore. Lembro de ver o Blackmore na TV e em uma hora ele ficava brincando com a câmera. Ele apontava a câmera para a guitarra e assistir aquilo na TV me impactou muito. Do nada, a imagem ficou preta. Achei que ele tinha destruído a câmera! [risos]. Nesse momento, vi que queria ser o cara que faz esse tipo de coisa.

Eu acho que tenho um ‘Completo de Ritchie Blackmore’. Ele tem um temperamento forte quando parece que o resto dos membros da banda não se importam tanto com a música da maneira que deveriam. É aquele negócio de achar que as pessoas precisam trabalhar duro na sua música. Fico chateado quando as coisas não saem como planejei. Por outro lado, nunca tentei destruir uma câmera de TV com a guitarra! [risos].

Depois, me influenciei por Eddie Van Halen, Yngwie Malmsteen e Stevie Ray Vaughan. Adorava as bandas dos anos 1980, como Dokken, Rat, Whitesnake e tudo mais. O guitarrista do Whitesnake era ótimo. Thin Lizzy também é bacana.

Você tem uma história com o Whitesnake, certo?

Sim! O que aconteceu foi que eu estava no último ano na Universidade. Tinha uma revista inglesa sobre rock que era famosa. O lance é que quando uma edição sai, as notícias já são velhas. De qualquer forma, vi uma notícia sobre o Whitesnake. Acompanhava muito o Whitesnake porque eles vieram do Deep Purple, assim como o Rainbow.

No caso do Whitesnake, do David Coverdale, eles já tinham uns seis álbuns, mas só dava para conseguir o disco importando da Europa. Eles tinham dois guitarristas, mas não curtia muito o som da guitarra. Aí, vi nessa revista que o Coverdale tinha demitido os dois e buscava substitutos.

Vi esse anúncio e pensei: ‘Bom, se eu não tentar nada, vou me odiar para sempre’. Eu ia ficar o resto da vida lamentando nunca ter tentado. Então, fiz uma gravação de fita cassete tocando duas músicas. Enviei para o endereço para eles avaliarem. Tentei fazer meu melhor, sabe? Achei que nunca fosse ouvir nada mais sobre isso.

Meses depois, meu telefone tocou e era o chefe da gravadora do Whitesnake. Naquela época, o conceito de era digital não existia. A gravadora era algo muito grande. É difícil um jovem de hoje entender. É como se você tivesse 17 anos, vindo de uma cidade pequena e do nada as pessoas começassem a dizer que você é bom, só que você não tem conexões. Aí, escrevi uma carta e tudo mais.

O pessoal da Atlantic Records disse que achou ótimo meu vídeo e queriam que eu mostrasse mais. Achei que fosse algo de filme, que nunca aconteceria na vida real. O departamento de Arte e Repertório era algo muito grande na gravadora e foram eles que me contataram. Ainda existe esse tipo de trabalho nas gravadoras. O trabalho é descobrir novos talentos e assinar antes de outras.

Aí, recebi outra ligação dizendo que a audição estava cancelada, porque o Whitesnake já tinha assinado com o John Sykes. Ele também era um dos meus guitar heroes. Eles falaram que gostaram do que eu fiz e queriam construir uma banda para mim. Esse cara se tornou meu mentor por uns três anos e me ensinou muita coisa. Finalizei a Universidade em Violão Clássico e ele me ensinou como tocar guitarra no estilo rockstar. Como ser um músico profissional.

Ele assinou comigo e foi assim que começou o Fierce Heart, minha primeira banda grande. Foi uma experiência grande para mim. Aprendi muitas coisas com ele. Me tornei muito melhor do que poderia ser.

Como começou a questão da religiosidade na sua vida?

Toda música é espiritual de alguma forma. Quando estou com meus alunos, gosto de perguntar: ‘O que é música?’. Para mim, é comunicação. Se você toca guitarra, canta ou toca bateria, sempre é sobre algo que está dentro de você e você quer comunicar para o mundo. É como você mostra sua essência e sua mensagem.

Quando falo que toda música é espiritual, acho que é nesse nível. Algumas músicas são sombrias, outras sobre amor. Mas todas são sobre algo que o artista quer dizer. Se você ouvir músicas do ‘Black Sabbath’, é bastante espiritual e eles falam muito de deus. Eu creio em deus e na bíblia e vejo a música como uma ferramenta para expressar coisas que quero dizer. O Whitecross veio nesse sentido.

Mas comecei com o Fierce Heart na Atlantic Records. Eles me desenvolveram e ao mesmo tempo, percebi que adorava compor músicas sobre deus e a bíblia e encorajar pessoas a confiar em deus. Essa é a base do que o Whitecross é. O Fierce Heart acabou que não durou muito. Depois dessa experiência, o que viria? Então, encontrei o cantor que seria da Whitecross. Ele conhecia músicos na mesma vibe. Ele precisava de um guitarrista.

Lançamos o primeiro álbum em 1987 e, tecnicamente, acho ele muito ruim! [risos]. Tínhamos um engenheiro de som que não sabia o que fazia. Não tínhamos produtor nem nada. Fico até envergonhado do resultado. Não havia orçamento também, fizemos o que podíamos. Estávamos por um fio, sabe? A única experiência era a minha no Fierce Heart.

As pessoas dizem que é importante estar numa banda para se rebelar contra as autoridades e tudo mais. Minha visão é que deus sempre trabalhou na minha vida. Você precisa descobrir quem você é como artista. Passei a vida buscando isso. O que quero dizer para o mundo? Se você ouvir minhas músicas, vai entender como me sinto. As coisas que fiz no Whitecross são sobre acreditar no deus verdadeiro, que te ama e tem um plano para nossa vida.

Toda pessoa no planeta que está viva tem valor infinito, mesmo que seja uma criança na África que é pobre ou um banqueiro que faz milhões de dólares. Não importa quem você é, todos são importantes. Como músico, acredito que tudo que temos a dizer é importante.

As pessoas estão mais abertas para essa mensagem sobre deus no rock hoje em dia ou nos anos 1980 era mais fácil?

Acho que as pessoas estão acostumadas com isso hoje em dia. Uma das primeiras bandas com essa mensagem foi o Stryper lá atrás. Eu gosto deles. Acho que quem gosta de Stryper pode gostar de Whitecross. Existem muitos estilos de rock e heavy metal agora. Tem o death metal e tudo mais. Já ouvi Behemoth e coisas do tipo. Eles gostam de blasfemar a igreja e o nome de deus. Fazem um esforço para isso e blasfemar cada vez mais. Só que as pessoas que tocam nessas bandas falam que é só um espírito de rebelião. A Igreja Católica de Roma é um símbolo da autoridade humana. Tenho minhas questões com a igreja. Não acho que eles falam por deus, sabe?

Quando comecei o Whitecross, as pessoas falavam que soávamos como o Ratt. Isso era porque nosso cantor parecia mesmo o do Ratt. Eu acompanhei esse rock mais festivo. Parecia que todas as bandas na época falavam sobre a mesma coisa. Sobre viver intensamente e tudo mais. Era a atmosfera hedonística que pairava. Sei que existem pessoas que vão desligar a conversa quando perceber que falo sobre deus. Não dá para agradar a todos, mas quero alcançar quantos conseguir.

Como as pessoas reagiram nesse começo da cena do rock cristão?

As pessoas acharam estranho o fenômeno do Stryper. Se você ver o Dio, ele fala que deus não existe nas letras. Que é uma construção da mente. A verdade seria apenas o que temos aqui. Ele expressava um niilismo, que é uma filosofia que diz que não há deus e tudo é aleatório. Nosso corpo é apenas uma coleção de átomos e precisamos encarar a morte. Isso é tudo que existe. O Dio batia muito nessa tecla. O Lemmy também, sempre falava que se dane para a Igreja e a religião.

Aí, surgiu esse lance do rock cristão, que virou uma tendência. Existem em todo mundo hoje em dia. Os roqueiros ‘de verdade’ falam sobre sexo, drogas e rock. O Guns N’ Roses surgiu um pouco depois e continuaram essa filosofia. Eles podem fazer o que quiserem. É como na política. Eu adoro o timbre de guitarra, mas não concordo com suas letras. Muitos músicos são impressionantes, mas não são legais para mim no nível pessoal. Não acho que sou especial ou melhor do que ninguém.

No começo, fiz o primeiro álbum do Fierce Heart e vieram me falar que não era cristão mais. A verdade é que falo sobre outras coisas também às vezes, mas continuo sendo cristão. No Whitecross, tinha uma gravadora também.

Como foi a volta do Fierce Heart?

Nós reformamos a banda em 2018. Não tem tanto tempo assim. Recebemos um convite para tocar em um festival. Foi tão divertido que resolvemos continuar e trabalhar em um novo álbum. Uma coisa boa que aconteceu foi que fui apresentado para a Darkstar Records. É uma gravadora bem mainstream. Eles sabiam da minha história com o Whitecross e Fierce Heart. Quiseram se tornar a casa de todo meu trabalho.

Finalizei o disco do Fierce Heart no meio da pandemia em 2020. Não podia ter sido pior o período. Todos de lockdown com medo de sair. Agora, estou trabalhando em um novo álbum o Whitecross. Sempre estive em selos cristãos e agora acho que será melhor. Quero tornar minha música acessível para todos os segmentos, não só com o pessoal do rock cristão. Se você gosta de guitarra, pode curtir minha música.

Como foi a transição do Fierce Heart até o primeiro álbum do Whitecross?

O primeiro álbum do Fierce Heart é famoso até hoje em dia, mas nunca foi um grande sucesso. Depois do disco ter sido lançado, fizemos uma turnê rápida. Nós iríamos abrir para o Deep Purple. Isso foi em 1985. Só que aí a gravadora decidiu atrasar o lançamento do disco em alguns meses. Aí o Deep Purple não quis mais nós como abertura. Eu ficaria apavorado em conhecer o Ritchie Blackmore em pessoa! Ele não tem histórico de tratar bem bandas de abertura. Então, foi melhor assim.

Nessa época, a MTV realmente tocava videoclipes! Eles promoviam as bandas de rock e isso era algo ótimo. Tinha uma cena forte de pop. Eles quiseram fazer um videoclipe do Fierce Heart. O presidente da gravadora estava passando por um divórcio e deixou os negócios de lado, acabou não rolando. A Polydor comprou nosso contrato, mas não foi para frente. Muitas coisas que acontecem precisam ter sorte. Estar no lugar certo e na hora certa. Hoje em dia, você se esforça por anos para trabalhar na música e surge um cara de 19 anos bonitão e vira o rockstar. Não tem resposta muitas vezes.

Por que o Whitecross teve sucesso? Não sei! Nosso primeiro álbum foi horrível. Conheci o Scott e começamos, éramos crianças quase. As pessoas começaram a comprar os discos. Em todo lugar estava sold out. Nem precisávamos correr atrás de shows. Os produtores vinham até nós. Tudo o que fazíamos funcionava. Eu já tinha experiência na banda anterior e vi o que funcionava ou não.

Fizemos muitas turnês por cinco anos. Foi assim que construímos nossa base de fãs que temos até hoje. Isso foi antes da internet. As pessoas gastavam 15 dólares para comprar uma fita cassete.

Como foi a composição das músicas do primeiro álbum do Whitecross, que leva o nome da banda? Foi um trabalho seu e do vocalista Scott Wenzel?

Eu escrevi uns 65% do nosso catálogo. O Scott escreveu muitas letras também. Hoje em dia, o Whitecross tem um novo vocalista. Escrevo tipo 90% de tudo. Não sou muito rápido como compositor. Tem gente que em dois meses escreve uma dúzia de músicas. Não sei como conseguem! Eu preciso de tempo, fazer uma demo, esperar um pouco, voltar e ver como ficou. Se eu tiver uma ideia que vejo que é boa, passo a trabalhar. As coisas demoram um pouco. É um processo que não dá para apressar.

Um dos grandes hits do Whitecross é a música “Enough Is Enough”, desse álbum. Quais memórias você tem da composição dela? Por que as pessoas gostam tanto dela?

Eu escrevi essa música e tinha uma progressão legal de guitarra. Bem divertida. A letra é divertida de cantar também, fácil de ficar na cabeça. É tipo aquelas músicas que você odeia, mas fica na cabeça! Quem escreve letras precisa pensar nessas coisas fáceis de lembrar. Eu já tinha feito um álbum que não teve sucesso, então tinha a pressão e o medo de acertar dessa vez. Essa música é divertida e parece com o Ratt. Ainda é bastante popular e tocamos nos shows.

Vocês lançaram o álbum e começaram a turnê logo depois?

Sim. O álbum saiu e trabalhamos nele. Começamos em dezembro de 1986 a gravar e em março de 1987 tudo estava pronto. Foram três meses e meio de trabalho no estúdio. Tem um festival famoso dentro do rock cristão chamado Corner Stone Festival. Todas as bandas estariam lá e os fãs viriam de vários lugares do mundo. Fomos convidados para tocar e muitas pessoas nos viram.

O disco tinha sido lançado duas semanas atrás e todos se perguntaram quem era a gente. Todos compraram! Foram para casa e falaram umas com as outras sobre a gente. Essa coisa foi algo que favoreceu bastante a gente. Começamos a receber ligações de vários lugares para fazer shows. Era show sexta, sábado e domingo. Começamos a voar para fazer shows. Fazíamos mais de trinta shows por mês por todo os EUA.

Depois disso, começamos com uma agência de shows. Eles falaram que já tinha outra turnê como headliner pela frente. Tocávamos para 200 pessoas numa segunda-feira ou para 1 mil em um sábado. Éramos desconhecidos fora do meio cristão, mas começamos a tentar construir isso. Hoje em dia, meu objetivo é continuar fazendo músicas para meus fãs e atrair mais gente.

Em 1988, vocês lançaram o EP “Love On The Line”. Por que não foi um disco completo e sim o EP?

Bom, existe uma coisa chamada ganância! Nosso primeiro álbum saiu e estava muito bom. Estava sendo um baita sucesso e ninguém conhecia a gente. Então, nosso empresário falou que tinha um estúdio na Costa Leste para nós gravarmos. Ele queria que a gente fosse lá para gravar o próximo disco completo. Só que ele sabia que não estávamos preparados para gravar um segundo álbum ainda. Ele propôs de gravar umas duas músicas, só para manter os fãs aquecidos.

Ele disse que éramos uma banda de verdade e tínhamos público. Esse público queria mais músicas. No final, compomos ‘Love On The Line’ e mais uma. Aí, a gravadora disse para a gente pegar duas músicas que já haviam sido lançadas no primeiro álbum e incluir, para dizer que são quatro no total.

Eu fiquei horrorizado com aquilo. Achei totalmente errado. Eles compararam nosso lançamento com o EP do Metallica, que também tinha lançado um EP na época. Só que no caso deles, havia umas cinco músicas inéditas. Isso foi ganância por parte deles.

Depois, vocês gravaram o “Hammer And Nail”, em 1991. Ele tem dois sucessos grandes: “Take It To The Limit” e “Walk With Me”. O que você lembra dessas músicas?

Algumas questões começaram a surgir nessa altura. Com nosso primeiro álbum, começamos a tocar em shows. Só que muitos começaram a falar que a banda não era lá muito boa. Falaram que nossos instrumentistas não eram muito bons. Isso é importante para entender o Whitecross.

Não tinha banda de rock cristão com guitar hero. O Stryper não tinha essa personalidade. Até que surgiu a gente. Esse foi um fator que fez a gente ter sucesso. Eu estava sempre tentando puxar os outros integrantes para cima. Eu queria que fôssemos uma banda melhor. Se nosso baterista é ruim, hoje em dia dá para consertar no computador. Se ele erra o tempo, é só ajeitar.

Na época, precisávamos gravar várias versões de uma música e aí gastar horas vendo que partes ficaram melhores. O refrão dessa, o verso daquele e tudo mais. No caso de ‘Walk With Me’, a faixa de bateria não tinha condições de usar. Foi um momento de crise no estúdio. Pedi ajuda. Apareceu um tecladista que conseguia reproduzir a bateria com o teclado. Foi assim que fizemos.

No caso de ‘Take It To The Limit’, tinha um solo de guitarra lá muito bom. Só que eu sabia que sempre que tinha um solo, eu ficava com medo achando que não conseguiria tocar. Resolvi evitar chegar a hora da gravação desse solo. Já era na hora de mixar o álbum e não tinha gravado ainda. Dizem que tudo acontece por um motivo. Não acredito nisso, mas às vezes deus envia alguém no seu caminho na hora certa. Isso aconteceu. Chegou um cara do nada que não parava de falar. Falei para nosso engenheiro de som que eu ia gravar naquele momento o solo! O cara estava enchendo o saco e me enfureci [risos]. Fiquei com tanta raiva que gravei em uma tacada só. Acho que deus mandou esse cara no estúdio para me enfurecer e acertar no solo. É tipo no filme ‘Exterminador do Futuro’, quando falam que a raiva é o sentimento mais útil.

O ‘Hammer and Nail’ foi a primeira vez que tivemos integrantes deixando a banda. O Mark Heidi (baterista) e o John Sproule (baixista) saíram e no ‘Triumphant Return’ tivemos novos baixistas e bateristas. Isso mudou a atmosfera nesse disco?

As pessoas dizem que deve ser legal ter minha vida, mas na verdade era difícil. Não fazíamos muito dinheiro e lutávamos para sobreviver. Fazíamos show para caramba em uma van. Não tínhamos equipe e era tudo sozinho. Se fizéssemos shows, conseguíamos o dinheiro do mês. Tinha que ter sempre show. Isso era estressante.

Não sei qual é a motivação de uma pessoa quando entra em uma banda, mas quando você tem sucesso, como estávamos tendo, as pessoas precisam se olhar no espelho e se perguntar se querem mesmo essa vida. Nosso baixista sempre foi grande amigo meu. Inclusive, falei com ele recentemente. Na época, ele me disse que queria deixar a banda para frequentar a Universidade. Disse que era uma boa ideia. As garotas o adoravam, mas realmente ele não tocava lá muito bem. Nosso baterista disse que não conseguiria ser o baterista que eu precisava que ele fosse. Ele foi bem honesto. Eu precisava de um profissional. Ele decidiu saiu.

Arranjamos novos caras e a banda ficou nessa. Às vezes, gente saía. Não tínhamos dinheiro para pagar todos, sabe? O trabalho é duro e todos merecem ganhar, mas não existia esse dinheiro. Você trabalha com hora extra por salários que são de meio período. Após anos assim, muitos desistem e vão fazer coisas para ganhar mais. Apenas uns caras como eu continuam. Esse é quem sou. Então, foi fácil fazer esse terceiro álbum, porque os músicos que entraram eram muito bons. Tínhamos mais experiência e um pouco mais de grana. Foi uma progressão. A qualidade do disco melhorou.

As gravadoras enxergam os artistas como commodities. Eles tomam decisões em nome do artista que não necessariamente são boas para os artistas, mas são boas para eles. Às vezes, dão conselhos bons. Outras vezes, nem tanto. Eles falaram para chamar o baixista Rick Cua para gravar junto. Eles sabiam que viemos do nada e esse cara era um grande nome. Precisávamos tentar e tudo mais.

Eu disse que tudo bem. Ele fez o melhor. Eu não estava feliz com aquilo, fui contra. Eu estava receoso, na nossa primeira conversa ele falou: ‘É preciso saber quando não tocar o baixo também’. Eu vim de uma escola do ‘mais rápido, mais coisas’. Seu próximo solo precisa ser mais rápido. Essa era a mentalidade. Nunca quis ouvir ‘menos é mais’. No terceiro dia de gravação, percebi o que ele falava e comecei a apreciar. No fim, Rick Cua era um ótimo baixista. A gravadora deu o conselho correto dessa vez.

Ele tocou no álbum seguinte também. Ouvi tudo o que ele tocou e aprendi muito sobre como fazer o arranjo de forma mais interessante. Onde encaixar o baixo? Ele me ajudou a entender isso. Antes disso, eu botava o baixo apenas imitando a guitarra. Ele tinha ideias diferentes. Tive a oportunidade de aprender com muitos bons músicos a ser um melhor compositor e produtor. Nessa época, tínhamos o Rick Armstrong tocando baixo também. Ele na verdade só chegou no estúdio depois. Ele tocou algumas coisas, mas o Rick ajudou muito. Muitas pessoas vieram me dizer que esse álbum “Triumphant Return” é nosso melhor álbum no quesito produção e estilo das músicas. Depois disso, nossa maneira de compor mudou um pouco.

Você fez muitos shows com bandas famosas da cena?

Já fui convidado pelo Billy Smiley para tocar guitarra no White Heart. Eles são cristãos também e são bem grandes. Considerei a oferta! Talvez seria legal, mas sabia que nunca seria feliz tocando música dos outros. Fiquei honrado com o convite.

Uma vez, estava no aeroporto esperando. Olhei para o lado e vi o Kevin Cronin, vocalista do REO Speedwagon. Ele é um cara muito legal. Conversamos por uns minutos e foi bem legal. Outra vez, em outro aeroporto, perderam minha guitarra! Quando estava procurando, do nada apareceu o Joe Perry, do Aerosmith. Ele também estava procurando a mala dele! Fiquei surpreso. Ele entrou em pânico e achou que eu fosse um fã doido. Ele saiu correndo de mim! [risos].

Como foi sua relação com o vocalista Scott Wenzel? Foram muitos anos tocando junto!

Você conhece a expressão ‘manter o casamento por causa do bebê’? Esse foi o caso. O bebê no caso é o Whitecross. Tem outra expressão que chama ‘shotgun wedding’, que é quando o cara pega a filha do sujeito e agora o pai obriga os dois a casar. Nós somos pessoas bem diferentes, com ideias diferentes sobre como a música deve funcionar. Ideias diferentes sobre hierarquia dentro da banda também.

Ele me falou um dia que achava que o cantor era o chefe. Todas as bandas grandes são assim. Todo mundo fica paparicando o vocalista. Ele achou que assim que as coisas funcionariam. Bem, não é assim que funciona. Se você for o Justin Bieber, pode até ser. Se você for uma celebridade e tal. Nós somos apenas caras numa banda de rock! Todos precisavam ajudar a carregar as coisas e tudo mais.

Por outro lado, não tenho medo e falar sobre mim. Tinha um complexo de Ritchie Blackmore. Eu insistia muito, demandava muito e tudo tinha que ser da forma que eu queria. Acho que eu sufocava os outros caras. Eles tinham ideias, mas eu decidia como fazer. Porque os outros tinham sorte de estar no Whitecross. A razão do nosso sucesso era minha guitarra e tudo mais. Nunca quis ser malvado, mas hoje sei que tinha um grande ego e era arrogante. Quando você vê que as coisas que você faz dão certo, é difícil não ser arrogante.

De qualquer forma, eu e o Scott brigávamos muito. Nós curtíamos as mesmas coisas, mas as ideias eram muito divergentes. Uma das coisas mais legais que ouvi na vida, acredite, veio do Mike Tyson. Ele disse que se você não for humilde, a vida cuidará que a humildade lhe faça uma visita’.

Quando surgiu o grunge, bandas como Nirvana e Pearl Jam fizeram com que nosso som ficasse esquecido. Pessoalmente, acho essas bandas estúpidas. Não gosto. Cadê as notas altas do cantor? Não tem! Qualquer um pode fazer isso, sabe?

 O que acho legal nas bandas que mais curto são três coisas, que para mim garantiriam o sucesso: primeiro, um vocalista ótimo. Aqueles vocalistas do grunge não conseguem alcançar notas. A segunda coisa é ter um ótimo guitarrista. Nós fazíamos ótimos riffs e tudo mais. Em terceiro: é preciso boas músicas, que as pessoas conseguem ouvir e se conectar de maneira fácil. Também seria legal ser fotogênico e bonito, mas não somos assim! [risos]. Se eu fosse, as coisas seriam mais fáceis.

Sempre trabalhei mais duro na guitarra porque não vou ganhar nenhum concurso de guitarrista mais bonito! [risos]. Estamos no ramo do entretenimento e as celebridades precisam ser bonitas. Mas ainda posso ser um ótimo guitarrista. Então, me tornei humilde, sabe? Percebi que o mundo não gira em torno de mim. A vida não é só sobre o que é melhor para mim. Espero que tenha me tornado melhor. Vejo minha banda hoje e vejo que todos têm necessidades e tudo mais.

O próximo disco foi o “In The Kingdom”. Vocês ganharam o prêmio Dove Awards nessa ocasião. Por que você acha que ele foi tão especial assim? Foi o primeiro videoclipe na MTV também, né!

Tenho muitas memórias desse álbum. Gosto de tocar a história da música ‘In The Kingdom’. Depois do ‘Triumphant Return’, comecei a me preocupar porque a gravadora estava falindo. O que mantinha ela viva eram as vendas dos nossos álbuns. Eles nos deviam dinheiro e tudo mais. Esse álbum seria minha chance de se tornar grande de fato, mas eles estavam falindo. Sabe o que um espirro e um solo de baixo têm em comum? Você sabe que estão vindo e não pode fazer nada sobre isso! [risos]. Eu sabia que eles iam falir e não via escapatória.

A Starsong Records, que era de música cristã e era maior, falou que queriam adquirir bandas de rock. Eles queriam coisas jovens e com energia. Vieram falar com o Whitecross. Fizeram uma proposta para nossa antiga gravadora e acabou que eles compraram a gravadora inteira e compraram nosso contrato. Eles pagavam o que nos deviam. Do nada, as coisas melhoraram muito!

Eles disseram que nós podíamos fazer melhor. Só que queriam mudar um pouco nosso estilo. Falaram que precisávamos de baladas de sucesso. Trouxeram um cara de fora para compor junto. Na época, não quis ouvir aquilo. A gravadora do Van Halen não chegava para eles e dizia que precisavam de compositores de fora. Vão mudar nossa fórmula? Só precisavam colocar mais combustível no nosso fogo. De qualquer forma, contrataram um cara chamado Dez Dickerson. Ele compôs conosco nesse álbum.

Ele era bonitão, tinha cabeço roxo e tudo mais. Ele foi o produtor executivo do nosso álbum. Ele compôs a música ‘In The Kingdom’. O trabalho dele era me convencer a gravar essa música! Ele voou até Chicago, depois alugou um carro, veio até minha casa. Não queria aquilo, mas ele veio com a demo da música. Ouvi a fita e não quis saber. Achei horrível e odiei na hora. Não queria fazer. Tive uma crise.

Depois, no final, muda o tom e as coisas melhoram um pouco. Finalmente uma parte legal. Chegamos no estúdio depois e o produtor disse que eu precisava tocar um estilo diferente de guitarra. Ou seja, agora precisava mudar minha forma de tocar! Não sabia o que fazer. Eles colocaram um coral gospel com garotas negras. Isso é o que estava na moda. Não sabia onde encontrar isso! A gravadora encontrou pessoas para esse coral. Nos deram vários números de cantoras para ligar e as coisas foram acontecendo. Fomos acertando os cachês. No final, não parecia muito um álbum do Whitecross. Toquei violão nessa música e tiveram vários músicos de estúdio.

Eu achei que estava ficando muito bom. Fui embora do estúdio e no dia seguinte o pessoal continuava adicionando instrumentos e camadas. Tivemos cantores também de bandas locais que conhecíamos. Ficou um baita coral gospel. A música saiu e uma organização de missão de adolescentes resolveu usar essa música como tema deles. Foi muita exposição para a gente, virou nosso maior sucesso. Ficou tipo aquela música ‘More Than Words’, do Extreme, que é bem diferente das outras deles.

Essa música meio que foi imposta pela gravadora e eles acertaram. As coisas estavam indo bem e vendemos bem. Isso foi bem legal. Eles venderam 20 mil álbuns no primeiro dia. Depois mais algumas milhares. Foi nosso álbum mais vendido de longe. Esse disco foi o auge da minha arrogância, de querer fazer do meu jeito. Tem músicas boas ali. A música ‘No Second Chances’ também é bem grande. É a segunda mais reproduzida. No YouTube tem quase 1 milhão de visualizações.

A sonoridade do álbum ficou ótima. Tivemos acesso a um estúdio de alta qualidade. No primeiro álbum do Fierce Heart, lá atrás, nosso orçamento era ridículo. No primeiro do Whitecross também! Agora, no ‘In The Kingdom’, aumentou demais o orçamento. Nesse disco, o produtor fez com que o Scott desse seu melhor! Eu achei que ele já tinha dado o melhor no ‘Triumphant Return’. Ele gritou para caramba com ele! [risos]. Quando acabou a gravação, o Scott disse que o produtor conseguiu extrair seu melhor vocal. Mesmo o cara arrasando com ele sem piedade!

Fiquei impressionado também com o solo de ‘No Second Chances’. Tem um riff bem rápido ali e eu não tinha técnica para conseguir executar. Ele falou que dava para fazer com o Pro Tools, dava pra fazer o que eu queria. Antes não era bem assim. Ficamos 3 horas trabalhando nesse solo. Fiquei tendo várias ideias. Com esse programa, você pode esperar para ter ideias depois. Não precisa decidir na hora. Você fica adiando, mas precisa tomar decisões. Finalmente gravei. Muitos alunos pedem para eu explicar como tocar esse solo, mas nem eu sei ao certo! [risos]. Preciso isolar as tracks para entender o que fiz.

Nesse disco, eu estava com medo de tentar essa nova sonoridade. Será que os fãs continuaram conosco se mudássemos? É algo que dá medo. Mudar a fórmula. Eu sei que o artista precisa se desafiar e tudo mais. Estou cansado de as pessoas dizerem que fazemos sempre o mesmo álbum. Nós somos bons nisso. Não posso do nada tentar tocar algo tipo o Metallica. Sou melhor no que faço. De qualquer forma, fiz coisas que me orgulho nesse disco. Fizemos uma turnê de dois anos depois.


19 Jul 2023

Entrevista com Rex Carroll (Whitecross, Fierce Heart) – Parte 1

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