19/10/2022 às 20:38 Entrevistas

Entrevista com Tobias Sammet (Avantasia, Edguy)

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Tobias Sammet é uma das maiores vozes do power metal e é famoso pelo trabalho como vocalista do Edguy e Avantasia. Conversei com o músico sobre o novo álbum “A Paranormal Evening With The Moonflower Society”, do Avantasia, e conversamos sobre Tarja Turunen, Edguy, “Metal Opera” e muito mais! Boa leitura!

Gustavo Maiato: O novo álbum “A Paranormal Evening With the Moonflower Society” também é conceitual igual aos anteriores?

Tobias Sammet: Dessa vez, não fiz essa abordagem de escrever uma história de maneira contínua entre as músicas, como se fosse um filme. Quis encontrar uma forma diferente, que me deu oportunidade de compor 11 músicas independentes. Como se fossem cenas individuais, que me deram a chance de usar as letras para abordar questões que realmente estão no meu coração.

Ao mesmo tempo, quis manter a abordagem mais fantástica. O tema geral é sobre escapismo, como uma visita em um teatro de imaginação, que te arrasta para um mundo diferente. O título vem daí. Sou eu tentando nomear minhas inspirações, fantasmas e entidades que me rodeiam sempre que fecho a porta do estúdio e desapareço no meu mundo próprio. Tentei encontrar o nome para esses porteiros invisíveis, que me permitem entrar nesse mundo fantástico.

Gustavo Maiato: A música “Moonflower Society” tem uma pegada bastante anos 1980. Anteriormente, o Avantasia fez cover da música “Maniac”, hit daquela década. Podemos dizer que os anos 1980 estão cada vez mais presentes no som da banda?

Tobias Sammet: Acho que os anos 1980 sempre estiveram no Avantasia! Sempre fui inspirado por aquela sonoridade. A canção “Avantasia”, do primeiro álbum, foi inspirada por Van Halen e Queensrÿche. Já “Reach Out For the Light” foi inspirada por “Eagle Fly Free”, do Helloween.

Já “The Seven Angels” foi inspirada por Ronnie James Dio. Agora, sempre fui inspirado pelo pop dos anos 1980 também. Tipo, se você ouvir os primeiros álbuns do Avantasia ou Edguy, sempre tive essa queda pelos anos 1980! Foi a época em que me tornei fã de música de uma maneira geral.

Acho que foi em 1982 ou 1983 que virei fã do AC/DC. Depois, em 1987, virei fã do Kiss. Depois, descobri todas as bandas maravilhosas, como o Iron Maiden. O primeiro disco deles que comprei foi o “Live After Death”. Não posso negar esse meu lado. Claro que não foi tudo bom naquela época, mas A-ha, por exemplo, sempre gostei.

Gustavo Maiato: O álbum “The Metal Opera: Part 2” completou 20 anos agora. O que mudou na maneira que você compõe daquela época para agora?

Tobias Sammet: Não sei bem o que mudou. Não mudei nada de propósito, mas claro que as coisas evoluem. Quando compus aqueles dois discos, eu tinha 21 anos. Agora, estou chegando nos 45. Espero que eu tenha evoluído, mas nunca pensei em fazer nada diferente. Na verdade, eu era feliz com a maneira com que as coisas funcionavam lá atrás.

Posso ver similaridades em como trabalho. Por exemplo, tudo que faço é baseado em intuição e honestidade. Quero compor da maneira com que penso ser a melhor forma. Não crio grandes expectativas. Agora, tem umas diferenças sim. Não na maneira com que escrevo, mas como arranjo. Ganhei experiência. Posso fazer coisas melhores com minha voz. Sei como operar minha voz, mesmo que ela seja mais velha agora.

Outra diferença é que eu ampliei meu horizonte musical de possibilidades. Isso foi muito importante. Tipo, meus primeiros álbuns do Avantasia e Edguy, como ‘Hellfire Club’, são ótimos discos de power metal. Por mais que sejam bons, eram muito unidimensionais. Eram bons porque era bem extremo em uma direção.

Não acho que seja possível para mim hoje em dia fazer algo melhor seguindo essa linha. Se eu tentasse, sairia uma versão mais fraca daqueles discos. Foi importante abrir, para assegurar minha sobrevivência como músico.

Gustavo Maiato: Você escreveu no Facebook que o “The Metal Opera: Part 2” é o único disco do Avantasia que você não curte tanto hoje em dia. Principalmente por causa das letras! Poderia explicar melhor isso?

Tobias Sammet: Quando escuto esse disco agora, tenho memórias divertidas. Ok, eu era um jovem músico. Mas as letras não foram muito bem feitas. Tem erros lá e as coisas são meio desajeitadas. Não tem muitas metáforas. É como ler um livro de história e dizer o que está acontecendo, sem usar metáforas.

Musicalmente, acho que é muito unidimensional. Eu gosto dos dois “Metal Opera”. São meus primeiros bebês e sempre os adorarei. Só que se eu fosse compor discos daquela forma hoje em dia, iria questionar minha habilidade. De minha parte, no que diz respeito ao processo de composição, as músicas não são bem feitas. São desajeitadas e feitas por um jovem músico.

Talvez você encontre boas melodias lá, como “Reach Out For The Light”. É uma das minhas músicas favoritas do Avantasia. A “Farewell” é uma balada bonita, mas a letra é uma merda! [risos]. Ainda gosto desses discos e tenho uma relação saudável com eles, mas se alguém me perguntasse qual é meu melhor trabalho, eles não entrariam nem no meu Top 10 dos meus próprios discos! [risos].

Gustavo Maiato: Por falar na música “Farewell”, ela é a mais reproduzida no Spotify do Avantasia. Você lembra da composição dessa música? A que você atribui todo esse sucesso?

Tobias Sammet: Lembro onde eu estava quando compus. Era um quarto na casa dos meus pais. Em um tecladinho barato que eu tinha. Essa música surgiu bem rápida. Acho que ela se tornou tão grande porque tem uma bela melodia, principalmente naquela introdução meio Céline Dion. É uma música bem pop, não tem nada a ver com power metal! Não me importo, ela é ótima. As letras são meio bobas, mas consigo cantar.

Agora, acho que ela ficou grande também porque se você assistir aos nossos shows no YouTube, o momento mais memorável da apresentação sempre foi as pessoas balançando as mãos nessa música. É uma coisa memorável, bem puxada para o folk. Acho que a magia do ao vivo e as fotos que surgem desde a primeira turnê fizeram com que as pessoas se relacionassem com “Farewell” de maneira bem emotiva. Tem um solo bacana no estilo Ritchie Blackmore também. É uma música boa e tenho orgulho dela!

Gustavo Maiato: Nessa música temos a presença de Sharon den Adel, do Within Temptation. No novo álbum, Floor Jansen cantou algumas. O que acha de chamar Tarja Turunen e Simone Simons para completar o quarteto maior do metal sinfônico?

Tobias Sammet: Eu nunca planejo muito esse tipo de coisa. Sabe o que é engraçado? Acho que lá atrás no “Metal Opera” eu convidei a Tarja. Não lembro se foi para essa música específica. A Sharon era bem desconhecida naquela época. Não conhecia o trabalho dela. Isso foi em 1999. Nossa gravadora comentou sobre uma banda chamada Paralysis, que ela contribuiu em umas faixas. Gostei da voz e resolvi chamar. Falei com a Tarja lá atrás, mas de qualquer forma, nunca faço planos.

Agora, hoje em dia, tenho duas grandes cantoras para os shows do Avantasia, que são a Adrienne Cowan e a Ina Morgan. Elas são ótimas também e elas também merecem um lugar nos álbuns. A Simone e a Tarja são ótimas, não tem o que dizer, mas como não planejo, não sei dizer. Tudo que faço é por acidente, coincidência ou de forma espontânea. Tenho ideias, faço acontecer e é isso. Sou bem menos organizado do que as pessoas acham! [risos].

Gustavo Maiato: Você já sabe quais músicas do novo álbum entrarão nos shows?

Tobias Sammet: Nunca sabemos isso! Tenho uma ideia. Sei que as pessoas vão amar “Arabesque”, porque ela é muito épica. É bem maior do que as outras músicas. É majestosa e tem o Michael Kiske, Jorn Lande e eu nos vocais! Estou tão feliz com todas as músicas. Não é falando só por falar! Todas as 11 músicas dariam certo ao vivo.

Fazer um set ao vivo não é nada fácil. Especialmente no Avantasia, que temos um monte de músicas gigantes! Nesse novo álbum, quis colocar o máximo possível de músicas mais curtas. Fiz isso de propósito. Percebi que quando pensei o setlist das últimas três turnês, fiquei tipo: ‘Porra, essa aqui tem 7 minutos, essa tem 8!’. Não é fácil de acomodar todos os vocalistas da turnê. Quero sempre dividir de forma igual entre eles. É mais fácil quando são músicas menores.

A decisão será baseada em quais músicas se tornarão as preferidas das pessoas e também baseada em quem irá se juntar a nós na turnê. Também preciso ver essa questão sobre o equilíbrio no set. Precisa ter músicas mais rápidas, mais antigas, mais lentas. Tem também o fator da intuição. É preciso estar atento em muitos aspectos.

Gustavo Maiato: Gostei muito da música “Paper Plane”. Ela fica no meio do caminho entre uma balada e uma power. Poderia comentar um pouco sobre ela?

Tobias Sammet: Não sei dizer de onde surgiu a inspiração. Tive essa ideia que parece meio pop. Não é uma balada, só a versão demo, que era com piano. A versão final é na linha de “Lost in Space”. Parece uma coisa meio Coldplay ou A-ha. Uma coisa meio pop rock, só que com a voz do Ronnie Atkins. Ele é um cantor com duas vozes distintas.

Ele tem a voz power metal e também uma voz pop mais melancólica. Quando ele cantou essa música, tudo ficou mais profundo. É uma das músicas mais emocionantes do Avantasia, muito por causa dessa voz melancólica dele. Se encaixou perfeitamente no álbum. O disco é muito pesado e essa música é uma daquelas horas que dá para respirar um pouco.

Gustavo Maiato: Quais memórias você tem da última vez que veio ao Brasil e dividiu o palco do Avantasia com o saudoso Andre Matos?

Tobias Sammet: Foi ótimo rever ele naquela ocasião. Estávamos nos escrevendo por mensagem de texto quando eu cheguei no hotel. Ele estava em outro hotel, mas resolvemos nos encontrar antes do show e passar um tempo juntos. Decidimos fazer a “Reach Out For the Light” juntos, da forma que fazíamos quando estávamos em turnê juntos.

Lembro de estar no palco com ele e foi uma coisa meio descoordenada. Isso que deu a magia na coisa toda. Ninguém se importou se tínhamos uma coreografia. Naquele momento, lembro de pensar que seria ótimo fazer algo junto novamente com ele. O Andre devia estar no próximo álbum ou na próxima turnê.

Ele tocou conosco na primeira turnê do Avantasia e a razão pela qual deixou de cantar depois foi porque ele cantava várias músicas que eram do Michael Kiske. Aí, o Kiske resolveu voltar a tocar ao vivo depois de uns 15 anos. Expliquei isso para o Andre Matos e ele foi tranquilo em relação a isso.

Mas o Andre Matos cantou em alguns shows do Edguy na Europa depois. Não deixamos de trabalhar juntos. Pensei que seria legal trabalhar novamente com ele. Depois do show, não consegui o encontrar. Alguém disse que ele já tinha ido para o hotel, que estava cansado. Isso é algo normal de acontecer, não sei se teve a ver com o que rolou depois.

Isso era algo típico dele! Ele não dizia tchau mesmo às vezes. Ele era meio caótico em uma forma adorável. Ele sempre se atrasava e esquecia as coisas. Era muito desajeitado! De qualquer forma, queria conversar com ele depois daquela turnê. Só que uns 5 dias depois, recebi a notícia de sua morte e não acreditei.

Recebi uma mensagem de texto do meu tour manager dizendo que havia rumores de que o Andre Matos tinha morrido. Primeiro, não acreditei. Já teve rumor de que eu tinha morrido antes. Li isso na internet! Só que obviamente eu estava vivo. Fiquei chocado com as pessoas espalhando essas notícias. Achei que pudesse ter a chance de ser um desses rumores estúpidos. Depois, veio a confirmação. Eu e o Sascha Paeth ficamos em choque. Ele era um ótimo cantor, com qualidade humanas incríveis.

Gustavo Maiato: Você ainda fala com o pessoal do Edguy? O que sente mais falta em relação aos seus dias na banda?

Tobias Sammet: Estamos nos falando sim. Recebi ontem mesmo uma mensagem de texto do Dirk Sauer (guitarrista). Nos falamos sempre. O Felix Bohnke (baterista), obviamente. Com o resto do pessoal, não falo tanto, mas trocamos e-mails e dizemos “feliz aniversário”. É fácil explicar o que rolou. Precisávamos desse tempo de pausa. Formamos a banda muito jovens. Tudo é mais fácil, tínhamos os mesmos objetivos.

Só que a partir daí, cada um se desenvolveu de maneira diferente. As pessoas começam a ter ideias e visões mais particulares sobre tudo. Nos últimos 15 anos, ficou mais do que óbvio que tínhamos muitas divergências. Eram cinco opiniões diferentes sobre tudo. Já que somos amigos, pensamos em simplesmente tocar nossos caminhos separados, já que agora trabalhar junto estava exaustivo. Por isso, cada um está fazendo sua própria coisa. Não nos odiamos. É que agora, trabalhar junto é impossível para todos nós.

Agora, sinto falta de estar no palco com eles! Francamente? Sinto muita falta de cantar ‘Tears of a Mandrake’, ‘The Piper Never Dies’ e ‘Love Tyger’! [risos]. Não acredito que vamos compor um álbum juntos novamente tão cedo. Mas não vejo motivo para não tocar ao vivo em alguma ocasião. Não será hoje nem ano que vem, mas tem chance de dividirmos o palco juntos de novo. Fazer um álbum novo? Não tenho certeza. Bom, tenho 45 anos. Não sei que diabos pode acontecer com minha vida! Não sei o que farei amanhã! O que pode acontecer em 3 anos?

19 Out 2022

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