26/07/2022 às 17:55 Entrevistas

Entrevista com Björn Strid (Soilwork) 

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7min de leitura

Björn Strid é um dos mais respeitados vocalistas suecos de todos os tempos e faz enorme sucesso na sua banda Soilwork. Conversei com o rockstar sobre o novo álbum “Övergivenheten” e também sobre a cena sueca e como foi participar de músicas de Floor Jansen e Tarja Turunen. Boa leitura!

Gustavo Maiato: O novo álbum “Övergivenheten” é excelente! Levou quase 1 ano para ficar pronto. Por que levou todo esse tempo? Essa produção intensa afetou a sonoridade?

Björn Strid: Tivemos muito tempo por causa da pandemia de covid. Foi como se tivéssemos um grande papel em branco sem saber o que ia acontecer! Começamos a compor e decidimos dividir o processo em umas 3 ou 4 sessões de gravação.

Não foi tipo ficar 6 semanas seguidas no estúdio. Pela nossa experiência, sabemos que é difícil manter o foco por esse tempo todo. Queríamos dar a devida atenção para cada música. Foi um novo método para nós e funcionou muito bem. Demos espaço entre as músicas. Quando você só faz uma coisa por semanas seguidas, é difícil ser objetivo.

Houve momentos que decidi voltar para casa e deixar as mixes lá no estúdio. Fechei a porta e só voltei a ouvir na próxima visita ao estúdio. O processo foi bem interessante, com esse distanciamento. Você quase se esquece de como a música é, como são as melodias. Aí quando volta, vem aquele sentimento: ‘Uau! Nós fizemos isso? Isso é fantástico!’. Aí pode surgir uma ideia nova. A receita deu certo, vamos continuar com esse método no futuro provavelmente. Dá para sentir a presença da banda inteira em cada música. É um disco longo, com 14 músicas, mas acho que funciona! Ele te leva por uma jornada intensa!

Gustavo Maiato: Em português, o título do novo álbum significa “O Abandono”. Qual significado por trás desse conceito? Tem a ver com a pandemia?

Björn Strid: Acho que não tem nada a ver com a pandemia. É tipo a gente tentando continuar no caminho que começamos no “Verkligheten” (2019). Queríamos encontrar outra palavra poderosa em sueco, que pudesse ser analisada por diferentes ângulos. Esse conceito de "abandonado" é algo que todos compreendem. Todo mundo já se sentiu assim em algum ponto da vida. Você pode abandonar alguém ou algo. Isso dá medo. Então, escolhemos esse título. Ele combina com a atmosfera melancólica das músicas. Tem uma pegada das melodias típicas da Escandinávia.

Gustavo Maiato: O título do álbum é em sueco, mas temos uma música com título em francês!

Björn Strid: Sim! Para deixar tudo um pouco mais complicado! (Risos).

Gustavo Maiato: Pois é! Qual a ideia por trás da música “Nous Sommes La Guerre”? Por que escrever alguns versos em francês?

Björn Strid: Isso foi criação do nosso guitarrista David Andersson! Você pode achar que a ideia veio do nosso outro guitarrista, Sylvain Coudret, que é da França, mas na real veio do David! Ele tem essa fascinação pela língua francesa. Não é fluente, mas gosta de usar essa língua.

Ele veio com esse título, que significa "Nós Somos a Guerra". Não tem nada a ver com a guerra na Ucrânia que está rolando agora. Ele escreveu a música e no final foi legal ter nosso lado francês do Soilwork bem representado. Já que temos títulos e álbuns com palavras suecas, agora temos um pouco de francês!

Gustavo Maiato: O álbum tem elementos acústicos que dialogam com partes mais pesadas. Como combinar esses dois lados?

Björn Strid: Esse lance de termos muito tempo possibilitou que novas ideias aparecessem naturalmente. Temos violinos, pianos, violões e até banjo! Isso é algo que pode ser surpreendente, mas funcionou bem na minha opinião. O tempo para experimentar foi fundamental. Claro que isso pode acabar em um desastre também. Tipo quando o Brian Wilson dos Beach Boys começou a levar cabras para o estúdio! Não chegamos a tanto! Mas deu bastante certo, foi uma vantagem ter esses elementos acústicos, para criar dinâmica. Cria um espaço e tudo explode mais quando aparecem as partes mais pesadas.

Gustavo Maiato: Minha música favorita do disco é a “Is It In Your Darkness”. Tem um trabalho de guitarra muito bom. Qual foi a inspiração?

Björk: Essa música eu quem fiz. Acordei pensando em fazer algo na pegada thrash, com elementos que usávamos no passado. Mas também não queria soar como o antigo Soilwork. Tinha que ser algo renovado, sabe? Que mostre que estamos indo para frente a cada disco. Juntei essas coisas todas, com muitas atmosferas e melodias diferentes. É uma música baseada em riff de guitarra e isso traz elementos que podem lembrar nossos trabalhos lá no começo. Também é uma das minhas favoritas do álbum, fiquei muito satisfeito com o resultado!

Gustavo Maiato: A cena do metal na Suécia é muito forte, mesmo com uma população pequena. Qual a explicação para isso? As bandas se ajudam?

Björk: É muito difícil responder essa pergunta! Não sei exatamente o que rola. É algo especial. Acho que ter boas melodias é sempre o principal e isso vemos em vários subgêneros de metal na Suécia. É a melodia que toca as pessoas. Também acho que, ao longo dos anos, virou uma competição saudável. As bandas vão inspirando umas as outras. Ouvimos ótimas músicas toda hora e vemos vários artistas suecos obtendo sucesso.

Isso é um gatilho para as pessoas decidirem avançar nos estudos do instrumento e ir fundo para encontrar inspiração. Assim, conseguem refletir suas personalidades nas músicas, com melodias. É difícil explicar! A cena do metal na Suécia ainda é interessante. Nos anos 1990, as bandas eram parecidas. Agora, cada uma foi se diversificando. Tem muito mais bandas, selos e tudo. Ninguém lança demo mais, já vai direto para o Spotify.

Gustavo Maiato: No caso do Soilwork, como foi no começo da carreira? Vocês tiveram ajuda?

Björk: Tivemos sorte! Gravamos nossa primeira demo e nada aconteceu. Mudamos o nome para Soilwork e gravamos uma segunda demo. Aí surgiu o Michael Ammot, que toca com o Arch Enemy hoje em dia. Naquela época, ele estava tocando com o Carcass. Ele trabalhava em uma loja de discos na cidade em que começamos a banda. Era uma cidade pequena. Chegamos lá e ficamos tipo: “O que ele está fazendo aqui?”. Ficamos meio tímidos, porque amávamos Carcass. Um dia, decidimos mostrar para ele nossa demo.

Ele realmente gostou e disse que conseguia entregar a fita cassete para uns contatos dele! Aí duas gravadoras se interessaram! Tivemos sorte por ter essa conexão. Hoje, é fácil de se promover, por causa das mídias sociais, mas tem muita banda por aí, então tem isso também. São tempos bem diferentes. Claro que tivemos talento, mas conseguimos essa conexão com o Ammot.

Gustavo Maiato: Falando sobre sua técnica vocal, você alterna vocais guturais com limpos. Como você acabou trazendo esses dois estilos para o Soilwork e qual dica você daria para quem quer cantar como você?

Björk: Isso veio de maneira natural para mim. Desde o começo do Soilwork, nos inspiramos na cena de Gotemburgo, mas queríamos um caminho próprio. Álbuns do Devin Townsend também nos inspiraram. Acho que muita coisa aconteceu desde o começo do Soilwork, todos melhoraram muito individualmente e a banda foi se fortalecendo. Chegou em um ponto que me senti limitado de só ter vocal gutural.

Queria explorar coisas. Foi algo natural, não foi uma decisão do tipo: “Precisamos vender mais álbuns, então vou cantar limpo”. Não foi nada disso, mas nós gostávamos dessa abordagem. Acabou que nossa música ficou bem mais divertida, precisei praticar muito. Com as turnês, aprendi muito sobre minha própria voz. Pode soar estranho, mas se tem uma dica que posso dar em relação a voz é construir um falsete forte. Essa é a chave para construir uma voz forte. Não importa se você está numa banda de metal ou de funk.

Gustavo Maiato: A música mais reproduzida da história do Soilwork no Spotify é a “Distortion Sleep”, do álbum “Figure Number Five”, com mais de 25 milhões de streamings. Por que você acha que essa canção fez tanto sucesso? Que memórias você tem da composição dela?

Björk: Fico me perguntando também o porquê de ela ter feito tanto sucesso! Realmente não sei. Ela é bem grudenta, tem uma pegada rock, muitas rádios tocaram. Entrou em muitas playlists também. Se você entra em uma delas, automaticamente isso aumenta o número de streamings. O engraçado é que não tocamos essa música ao vivo já tem um tempão, porque o autor da música, nosso tecladista Sven Karlsson, não quer tocar! Estamos tentando convencê-lo a tocar novamente!

Gustavo Maiato: Em 2010, você cantou na música "In Sickness 'Till Death Do Us Part - Disdain", da banda Revamp, da Floor Jansen. Como foi a experiência?

Björk: Eu estava no estúdio gravando os vocais para nosso álbum “The Panic Broadcast”. Ela apareceu uma vez lá. Eu já conhecia o trabalho dela e achei legal que ela queria minha voz no álbum. Sempre respeitei ela como vocalista, ela é ótima! Depois, passei a conhecer melhor o trabalho dela. Ela aparece no nosso DVD depois. Ela vive na Suécia agora, espero esbarrar com ela em breve!

Gustavo Maiato: Alguns anos depois, você também trabalhou com a Tarja Turunen na música “Dead Promises”. Você tem um histórico em trabalhar com cantoras de metal!

Björk: Foi ótimo! Fiquei bem surpreso. Acho que fiquei mais surpreso com esse convite da Tarja querendo meus vocais! Nunca imaginei que ela fosse alguém que curtia esse metal mais extremo. Claro que temos muita melodia no Soilwork, mas foi legal de qualquer forma! Gostei muito de gravar, foi uma surpresa ótima! Ela é uma excelente pessoa. Nunca a encontrei pessoalmente, mas falei muito com ela no Skype já”.

Gustavo Maiato: Quais séries, filmes ou livros você está curtindo por agora?

Björk Estou assistindo “The Boys” agora. Comecei a segunda temporada e as cenas são sangrentas para caramba! Meu deus! Adoro a história, é bizarra! Brilhantemente feita. Agora, sobre livros, estou lendo o “World Travel”, do Anthony Bourdain. É bem interessante, que ele descanse em paz! Não sou um grande leitor, queria ler mais, mas perco a concentração rápido. Gosto de ler biografias. Gosto dessas coisas que são conectadas com a realidade, mas tem exceção. Não sou muito fã de fantasia ou ficção científica, embora goste de “The Boys”!

 

26 Jul 2022

Entrevista com Björn Strid (Soilwork) 

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