14/06/2022 às 20:52 Entrevistas

Entrevista com Septicflesh: guitarrista Sotiris Anunnaki V.

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Ao nomear o novo álbum de “Modern Primitive”, os gregos do Septicflesh aproximaram dois conceitos aparentemente distantes. Afinal, como ser moderno e primitivo ao mesmo tempo? Conversei com o guitarrista Sotiris Anunnaki V. sobre o lançamento e também sobre várias outras coisas! Boa leitura!

Gustavo Maiato: Qual o conceito por trás do novo álbum “Modern Primitive”? Essas duas palavras significam coisas contrárias. Como isso aparece no disco?

Sotiris: A contradição é grande parte da psiquê humana. Essa foi minha ideia inicial. Passei muito tempo refletindo durante a quarentena. Vi muitas reações primitivas, pessoas diferentes não colaboravam. Países diferentes se dividiam ao invés de se manter juntos. Percebi que a humanidade vive em tempos modernos, mas faltam elementos primitivos na maneira de pensar. Muitas músicas foram desenvolvidas a partir daí. Existem perguntas a serem respondidas.

Quando algo ruim acontece, é essencial descobrir o motivo pelo qual aconteceram. Temos muitas franquezas, não é justo apontar dedos para culpados. Vamos achar soluções. Sobre as músicas em si, temos os elementos sinfônicos e do heavy metal. Aí tem também um contraste. Combinou com o contraste do título.

Gustavo Maiato: A música “Neuromancer” traz conceitos como “cyberspace”, “mundo digital” e “vírus”, que estão no campo semântico da internet. Podemos dizer que a música é uma crítica a essa conectividade de hoje?

Sotiris: Esse título foi tirado de um livro do William Gibson. Ele é um pioneiro da estética cyberpunk e é como um profeta moderno. O que ele escreveu em seus livros parece cada vez mais se tornar realidade. Parece algo familiar, sabe? É sobre modernizar a essência humana, mas também perder esse elemento humano. Combinou com essa história da luta entre o moderno e o primitivo, que permeia o álbum. Por isso, usei esse livro como inspiração.

Gustavo Maiato: Você gosta da internet e das redes sociais ou acha algo prejudicial de certa forma?

Sotiris: Parece que os tentáculos da internet estão em nós! Não dá para escapar! Precisamos viver com isso. É como desejar voltar para a Idade das Pedras. Seria legal? Talvez, mas não dá para fazer. É a maneira moderna, não gosto de muitas coisas que acontecem e não apoio a ideia de perder a humanidade. Os seres humanos precisam usar as ferramentas, mas não serem dominados por elas. Você pode usar uma faca para cortar pão ou se matar. Tudo depende.

Gustavo Maiato: Outra música que me chamou muito a atenção foi “Coming Storm”. A introdução traz uma orquestra que simula mesmo uma tempestade chegando! Como surgiu essa ideia?

Sotiris: Essa música foi criada pelo Christos Antoniou. Ele sempre cria as músicas a partir da parte sinfônica. Claro que ele usa samplers no começo, para nos mostrar trechos e tudo mais. Depois, nos inspiramos a partir disso. Então, quando ele surgiu com a introdução de “Coming Storm”, quando ouvi os violinos, pareceu que eu estava em uma tempestade! Então, escrevi essa palavra: “Storm”. Desde o começo, sabia que essa música falaria sobre uma tempestade.

Precisei encontrar como conectar a tempestade com minhas ideias. Encontrei um caminho de falar sobre a situação atual da humanidade de forma metafórica com a tempestade. Nossas ações se refletem em nós. O ambiente ao seu redor reage também, então foi assim que a tempestade surgiu.

Nessa música, nosso guitarrista Psychon teve a missão de pensar os elementos mais heavy metal que poderiam se encaixar. Ele criou essas partes e quando tudo já estava mais adiantado, o Seth criou as linhas vocais. Ele me mandou uns guias de onde queria a melodia, mas sem a letra. Então, precisei fazer as letras de forma que se encaixassem na ideia dele. Trabalhei nelas antes de entrar no estúdio. Quando chegamos lá, gravamos e ouvimos tudo junto. Aí sim passamos a música por nosso filtro e retiramos o que não curtimos. Adicionei vocais limpos, achei que no final da tempestade precisava disso.

Gustavo Maiato: Como é gravar um álbum com uma orquestra completa? Quais os desafios e aspectos positivos?

Sotiris: Quando você tem a sua disposição vários instrumentos, dá para fazer literalmente qualquer coisa! É um campo aberto de experimentação para nós. Escolhemos uma orquestra específica que já trabalhamos outras vezes. Eles são especializados em filmes e somos bem cinematográficos. Eles sabem fornecer o que precisamos. O Christo fica por trás dessa parte sinfônica, porque estudou isso. Ele funciona como uma ponte da banda para a orquestra.

Temos ideias de como incorporar melodias de instrumentos diferentes. Damos nossas opiniões e aí é hora de a orquestra gravar. É algo bem caro, precisamos estar 100% preparados nessa hora. Por isso, antes de começar a gravar um álbum do Septic Flesh, muito do trabalho já foi feito. Precisamos focar na performance apenas. Claro que uma ideia ou outra acaba surgindo também.

Gustavo Maiato: Falando sobre as guitarras de “Modern Primitive”, podemos observa desde riffs pesados até passagens acústicas. Como foi equilibrar esses dois aspectos?

Sotiris: Foi uma loucura! Toco a maioria das guitarras no disco e o Christos foca mais nas orquestras. Ele não consegue se dividir nas guitarras também. Todos os outros caras criam riffs também. Até nosso baterista criou alguns riffs interessantes. Sua ideia é mais da perspectiva da bateria, algo mais rítmico e moderno.

O Seth traz ideias de guitarras de 12 cordas também. Pouco antes de entrar no estúdio, precisei ver todas essas ideias de todo mundo. Minhas partes são mais fáceis, já que eu quem fiz. São coisas que soam mais naturais para mim. Pego isso tudo e levo para minha mente, combino tudo e gravo. Tem muito trabalho de guitarra envolvido! Não temos solos de guitarra, porque já tem muito instrumento e aí acabamos encaixando solos de violino ou algo assim. Temos muitas partes rítmicas diferentes, incluindo a guitarra de 12 cordas. É algo intenso por isso. O violão também está lá, seus dedos precisam estar afiados para tocar direitinho. Tem um elemento ou outro rítmico desafiador, com velocidades rápidas! Ou seja, foi um desafio como um todo.

Gustavo Maiato: Se um estudante de guitarra te pedisse dicas para tocar black metal, o que você falaria?

Sotiris: As diferentes gerações de metal trouxeram abordagens diferentes no que diz respeito ao tocar guitarra. Artistas diferentes trazem linguagens diferentes também. Não me inclino para nenhuma escola específica, acho que o mais importante é que o artista consiga passar suas emoções por meio da guitarra. Claro que é preciso entender o que você está fazendo e para isso é preciso estudo. Se você ficar tipo um robô, não é legal, porque não transparece a emoção. Os guitarristas muitas vezes se importam muito em serem precisos, mas não deixam as mãos soltas para criar essa emoção. Agora, bandas como Meshuggah são muito precisas. Não dá para sair muito. No caso do Septic Flesh, temos exemplos dos dois mundos. Existem passagens mais espontâneas e outras mais precisas.

Na música ‘Psychohistory’, por exemplo, tem riffs que precisam ser tocados certinhos junto com a bateria. Isso significa que se o guitarrista deseja ser mais eficiente, nesse caso é preciso ser muito preciso. Senão vai ficar uma merda! Tem que ser 100% preciso. Então, se o guitarrista quer ir por esse caminho, precisa praticar muito com toda a parte rítmica junto. Você se grava e ouve, aí vê onde errou e melhora a partir daí. Precisa repetir muito.

Gustavo Maiato: Você conhece ou gosta de alguma banda do Brasil?

Sotiris: Sim! Gosto muito do Sepultura e do Angra. São bandas muito boas. Outras mais underground também curto, mas não lembro dos nomes! As pessoas me mandam coisas de todo o mundo e ouvi coisa legais do Brasil. Gosto muito do Sarcófago também, excelente banda! Seu país promoveu um grande impacto na cena do metal extremo como um todo!

14 Jun 2022

Entrevista com Septicflesh: guitarrista Sotiris Anunnaki V.

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