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Entrevista com Robert Garven (Cirith Ungol): "Não seríamos felizes usando maquiagem e cabelo loiro!"

Robert Garven, baterista do Cirith Ungol, é um daqueles músicos que realmente amam o heavy metal. Na entrevista abaixo, ele comenta um pouco sobre a carreira da banda (que "nasceu fora de época"), sobre sua paixão pelos clássicos e sobre os trabalhos mais recentes da banda, que voltou de um hiato de mais de duas décadas! Leia abaixo e "Join The Legion"!!!


Gustavo Maiato: Recentemente, o Cirith Ungol voltou à ativa após décadas de hiato. Qual foi a sensação de tocar novamente com a banda? Imagino que tenha sido bastante emocionante!


Robert Garven: Tem sido ótimo! O último ano foi difícil, por causa da pandemia. Isso atingiu o mundo inteiro, incluindo a indústria da música e nossa banda. Jurei que nunca mais ia segurar uma baqueta novamente, mas aqui estou eu!


Gustavo Maiato: Por que você acha que foi tão suave esse retorno? Imagino que você e os outros membros estavam fazendo outras coisas, tocando outros projetos de vida, mas parece que tudo deu certo...


Robert Garven: A gente decidiu voltar, temos uma banda e tudo mais. O grande problema sempre é achar um lugar para ensaiar. Isso é o mais difícil! Vivo em uma casa onde não posso ter uma bateria montada. Se eu tocar, seria preso!


Quando nos reunimos e encontramos uma sala de ensaio, ficou tudo bem. Estávamos enferrujados, claro. Não tocava bateria já tinha 25 anos. Tudo voltou rápido, as pessoas podem se surpreender, mas assim que reunimos já começamos a trabalhar o novo material.


Estávamos focando em tocar ao vivo, os grandes clássicos que todos querem ouvir. Mas trabalhamos também para compor músicas novas.





Gustavo Maiato: Cirith Ungol veio ao Brasil no festival Setembro Negro, em 2015. Você tem boas memórias dessa data?


Robert Garven: Sim! O Brasil foi fantástico! Chegamos no hotel, tinha alguns fãs ouvindo músicas nossas. Eles estavam lá, queriam nos encontrar. Levaram discos para a gente autografar.


Foi ótimo! O show também foi bom, muitas pessoas apareceram. A casa de show era apenas algumas quadras do nosso hotel, então podíamos ir e voltar toda hora. Simplesmente amamos tudo!


Gustavo Maiato: Eu li comentários na internet dizendo que o “Cirith Ungol provavelmente nasceu do lado errado do Oceano Atlântico”. Você concorda com isso?


Robert Garven: Sim, e digo mais. Acho que nascemos no tempo errado. Nosso objetivo sempre foi tocar um heavy metal mais tradicional. Isso veio das bandas que ouvíamos como Blue Cheer, Mountain, Deep Purple, Black Sabbath.


Ouvíamos essas bandas e o foco era tocar esse som. Decidimos isso lá atrás, mesmo que o cenário musical estivesse entrando na era disco, depois vieram as hairbands e o speed metal. Depois veio o black e o death, não tem nada de errado com essas bandas, mas nosso objetivo era tocar esse metal tradicional mais pulsante.


Amo esse tipo de som até hoje. Pode ser uma banda nova que apareça, ou então pego um dos meus discos antigos para ouvir. Esse tipo de música me afeta emocionalmente até hoje.




Gustavo Maiato: Se você fizer uma retrospectiva da sua carreira, você acha que fez a escolha certa? Você mudaria algo ou simplesmente as coisas aconteceram porque tinham que acontecer?


Robert Garven: Acho que aconteceu porque tinha que acontecer. Não acho que podemos mudar o futuro. Sei que você pode mudar na esfera pessoal, tomando decisões. Mas como banda... Não seríamos felizes dessa maneira! Não fico bonito de cabelo loiro!


Sou tipo um “lobo”, minha imagem sempre foi de um lobo meio cabeludo! Não sei se daria certo um lobo loiro! Acho que tomamos a decisão certa. Financeiramente, não. Nossa gravadora queria que a gente usasse maquiagem, mas nos recusamos!


Na medida que as músicas lançadas começaram a ficar mais rápidas, nunca ficamos confortáveis em tocar dessa maneira. Quando eu estava crescendo, o movimento punk estava forte. Muitas dessas bandas eram algumas das minhas favoritas, como Iggy and the Stooges e The Dead Boys.


Essas bandas estavam tocando realmente muito rápido! Então quando vimos que as bandas de metal estavam acelerando, entendemos que era tipo um cruzamento entre metal e punk. Não tem nada de errado com isso, mas a gente simplesmente não se encaixava nisso.


Preciso te dizer... Para mim, quanto mais lento, mais pesado! Por isso quando ouço essas bandas de stoner e doom, fico fascinado! É muito pesado. Já tocamos com algumas delas, como a Warning e o Trouble. Essa pegada lenta é muito pesada.


Por exemplo, eu estou ouvindo muito nosso disco “Frost and Fire”, que aliás está quase fazendo 40 anos. Então, fico surpreso de constatar que essas músicas nossas eram realmente muito rápidas! Agora que vamos tocar essas músicas ao vivo, vamos diminuir um pouco o ritmo.


Não é nada de propósito, é porque parece que as músicas pedem isso agora. Quando toco “I´m Alive”, tenho dificuldade de acompanhar, porque parece que é muito rápida!


Gustavo Maiato: Vocês estão comemorando 50 anos de carreira com o lançamento do EP “Half Past Human”. São músicas antigas que não foram lançadas, certo? Como foi a ideia de lançar esse novo trabalho?


Robert Garven: Parte do nosso contrato com a Metal Blade dizia que precisávamos lançar um disco completo. Então, lançamos “Forever Black”. Então, surgiu essa ideia do EP. Sentimos que podíamos fazer o que quiséssemos.


Muitas pessoas nos perguntaram se iríamos regravar sucessos antigos. Primeiro pensamos: “Estamos ficando velhos, acabamos de lançar um disco”. Todos gostaram, também achei um ótimo disco.


Será que era a hora de lançar mais um álbum? Na nossa idade, não sabemos quando a Morte vem nos pegar! Então, pensamos bem e concordamos em lançar um novo álbum que seria baseado em materiais antigos. Sopramos uma nova vida nessas músicas, para deixar mais pesado e poderoso!


Volto nessa questão do peso porque o núcleo da banda sempre foi escrever e tocar a música mais pesada possível. Pensamos que se pegássemos algumas músicas do nosso passado e espremer um pouco, deixaríamos elas mais poderosas. Acho que foi uma boa ideia.


Essas músicas escolhidas têm algo em comum. Todas têm esse tema sobre bestas e monstros. “Route 666” fala sobre encontrar o diabo em uma estrada solitária. “Shelob´s Lair” é sobre uma aranha gigante monstruosa. “Brutish Manchild” é sobre uma raça de meio-humanos que odeiam os homens comuns. E “Half Past Human” é sobre uma evolução às avessas, onde chegamos em um platô e caímos do outro lado.


A pintura do Michael Whelan que ilustra o EP se chama “Weird Of The White Wolf” e mostra o herói Elric com sua espada stormbringer enfiada nesse guerreiro meio-humano, meio-monstro. Ficamos felizes que tudo casou muito bem.




Gustavo Maiato: Falando sobre “Forever Black”, eu li comentários dizendo que o disco parece que foi composto nos anos 80. O comentário dizia que isso era algo muito bom! Você concorda?


Robert Garven: Isso foi muito engraçado! Já falei com algumas pessoas sobre isso. Ficamos muito animados de ouvir que as pessoas acharam que o disco soa dessa forma. Quando a banda resolveu se reunir, decidimos que iríamos recomeçar de onde havíamos parado.


Quando o disco estava sendo escrito, no entanto, todo mundo da banda achou que parecia mais um “Cirith Ungol 2.0”. Era uma versão nova da banda. Achamos tudo muito moderno e atualizado! Gravamos de forma digital e tudo mais.


Então vimos esses comentários de fãs dizendo que na verdade as músicas novas parecem nosso material antigo. Isso nos deixou felizes. Nosso objetivo não era mudar nossa música, a ideia era lançar coisas novas nessa pegada mais tradicional que amamos.


Quando a música “Witch´s Game” saiu, muitas pessoas falaram “Uau, Cirith Ungol ainda consegue escrever músicas e soar como o Cirith Ungol!”. Bom, a gente começou a fazer piada. Isso é ótimo!


Se os Beatles voltassem, não soariam como os The Rolling Stones! Soariam como os Beatles. O fato de nós soarmos como Cirith Ungol... As pessoas ficaram surpresas com isso. Achamos hilário.


Gustavo Maiato: No Spotify, “Join The Legion” é a música da banda com maior número de reproduções, com 430 mil plays. Por que você acha que essa música em particular é o maior sucesso da banda? Por que os fãs gostam tanto?


Robert Garven: Não sei exatamente. É uma música boa. A ideia por trás é reunir nossos exércitos do True Metal para lutar contra a criatura mítica que seria o False Metal! Não queremos exterminar outros tipos de música, mas queremos apoiar nossa visão de true metal no trono do metal!


É algo subjetivo, entendo isso. Mas “Join The Legion” é essa tentativa de reunir forças para marchar em defesa do metal. Na época, com as hairbands surgindo, vivíamos muito perto de Hollywood. Todas as bandas faziam a mesma coisa, tinham um cabelão e tocavam algo meio pop.


Para a gente, isso era uma abominação! Quando escrevemos, a ideia era essa. Depois, escrevi a letra de “Legions Arise”, do “Forever Black”. É uma espécie de sequência para “Join The Legion”, precisamos de vocês para continuar essa batalha!


Gustavo Maiato: Você não chegou a fazer nenhum projeto paralelo ou tocar em outra banda além do Cirith Ungol. Podemos dizer que o Cirith Ungol satisfaz todas suas ambições no mundo da música?


Robert Garven: Cirith Ungol foi a única banda que toquei na vida. A exceção foi o Titanic, que era um projeto lá atrás. Durou uns seis meses. Um dos caras da banda, o Pat Galligan, acabou tocando depois numa banda famosa de punk, o Angry Samoans.


Mas na época, ele amava os Beatles. Ele só queria tocar isso! Então, os outros caras, o Greg, eu e o Jerry, queríamos tocar coisas mais pesadas. As bandas pesadas estavam explodindo! Na rua da frente da nossa escola, tinha uma loja de música. Greg e eu fomos lá um dia e ele pegou o primeiro disco do Black Sabbath. Ele falou “Olha só essa banda! Como será que eles soam? Será que são bons?


Então, estávamos lá quando o metal estava acontecendo. Depois disso, lembro de ver o “Deep Purple in Rock” em outra loja. Achamos que era o primeiro disco deles na época, ficamos impressionados! Queríamos tocar aquilo.


Por isso o Jerry, eu e o Greg saímos e fundamos o Cirith Ungol. Depois, quando a banda estava se despedaçando, Tim e eu fomos os últimos a ficar. Decidimos que se a gente não podia tocar mais nossa própria música no Cirith Ungol, que estávamos por 20 anos, não iríamos continuar mais em nada.


Esse era nosso pensamento na época. Greg deixou a banda depois do “Frost and Fire” e foi para o Falcon. Mas todos os outros nunca foram para outras bandas.


Gustavo Maiato: Estou curioso sobre sua relação com o universo do Senhor dos Anéis. O nome da banda foi retirado de um lugar da trama, certo? Quero saber se você está animado para a nova série baseada no universo de Tolkien que a Amazon está produzindo!


Robert Garven: Sim, sou muito fã de Senhor dos Anéis. Essa foi uma razão de porque a banda começou a tocar junto. Na sétima série, tínhamos uns 13 anos, um professor de inglês passou esse livro para nós lermos. Éramos muito jovens. Não era um livro popular, eram três livros com umas 700 páginas cada.


Não era fácil de ler. Esse professor passou o livro para mim e Greg. Isso impactou muito a gente, então tiramos o nome da banda daí.


Mas eu não sabia que uma nova série estava para sair! Preciso conferir isso!


Gustavo Maiato: Sim! Será uma série. A primeira temporada deve ter uns 10 episódios! Será sobre uma história mais antiga, vai ter Númenor, Sauron...


Robert Garven: Uau! Muito legal isso. Outra pergunta que todos nos perguntam é por que nós pronunciamos nosso nome errado! A verdade é que naquela época, quando tínhamos 13 anos, li umas três vezes seguidas. Estava muito empolgado!


Porém, eu nunca li os apêndices! Um deles era justamente o que dizia como se pronunciava os nomes da saga. Nenhum de nós leu essa parte! Lemos os outros livros que foram lançados. Acredito que a nova série vá para esse lado então.


Outra história engraçada foi quando estávamos na Alemanha, para o Rock Hard Festival, em Gelsenkirchen. Uma repórter perguntou se era verdade que a gente falava élfico. Nós começamos a rir e falamos que se a gente falasse, não pronunciaríamos errado o nome da nossa própria banda!


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