Imagem capa - Resenha do EP

Resenha do EP "Dark Horse White Horse", da banda Dark Horse White Horse

Edgard Alan Poe, no conto “O Homem das Multidões” (1840), narra a história de um homem em estado de convalescença – ou seja, que acabou de se recuperar de uma doença/experiência de quase-morte.


Ele observa de sua janela um senhor andando na rua. A convalescência influencia suas percepções. Aguça seus sentidos. Desperta sua curiosidade. Ele se dispõe, então, a desvendar todos os pequenos detalhes do dia a dia das ruas.


É justamente sob esse estado físico e mental que Marcela Bovio, a mexicana mais holandesa que já existiu, lançou seu mais novo projeto: Dark Horse White Horse. O EP de estreia, que leva o nome da banda, mostra uma nova faceta da cantora, recém-vencedora da luta contra o câncer.


O que você está fazendo comigo? / Buraco negro, me puxando / Me engolindo por inteira. A letra de “Black Hole” – por si – já daria o tom de desespero e perplexidade das músicas. A cereja no bolo, entretanto, é a interpretação comovente de Marcela, gritando, implorando e sentindo como se os versos a machucassem.


A banda que completa o Dark Horse, como não poderia deixar de ser, traz grandes nomes da cena holandesa como o baterista Ariën vsn Weesenbeek (Epica) e a dupla ex-Revamp: Jord Otto (guitarra) e Ruben Wijga (teclado).


O Ep é composto de apenas 5 faixas, que dialogam perfeitamente entre si. Marcela, que é famosa pelos seus trabalhos no campo do progressivo (Ayreon, The Gentle Storm etc), dessa vez – pela força das circunstâncias – decidiu enegrecer a atmosfera com riffs pesados e uma sonoridade bem soturna.


Ela fez questão de observar os detalhes, como o personagem de Poe: os timbres de teclado foram muito bem escolhidos, a interpretação na medida certa das linhas vocais, as viradas precisas de Ariën. No final, fica a vontade de ouvir mais do trabalho, cujo principal defeito é ser muito pequeno.




Outro destaque é “Judgment Day”, que abre com um contraste: enquanto as guitarras performam uma passagem totalmente quebrada e pesada, no estilo prog, Marcela canta de maneira mais doce. Talvez esse seja o contraste Dark/White que nomeia a banda.


Dark Horse White Horse é, acima de tudo, um grito de vida. Dizem que é preciso que seu “eu” antigo morra para que um “novo eu” possa nascer. Marcela, no entanto, resolveu aliar a doçura e musicalidade que sempre esteve com ela com uma pegada mais agressiva, que combinou muito bem. Coisa de quem já passou por um bocado e refinou a maneira de passar sua mensagem.