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Entrevistas

Entrevista com a banda Pantokrator: "A cena de metal extremo acha que os cristãos invadiram o território deles!"

A banda de metal extremo com temática cristã Pantokrator lançou agora no início de 2021 o disco "Marching Out Of Babylon" (resenha aqui), o mais novo trabalho de estúdio dos suecos. Nas linhas abaixo, você confere meu bate papo exclusivo com o baterista Rickard Gustafsson e o vocalista Karl Walfridsson. Ao longo da conversa, falamos sobre os principais temas por trás das novas músicas, sobre o preconceito com as bandas cristãs e também sobre educação religiosa em um país secular como a Suécia. Boa leitura!





Gustavo Maiato: Eu quero começar perguntando sobre a música “Day of Wrath”. Ela fala sobre Sião, o nome de uma famosa fortaleza perto de Jerusalém. Esse também é o nome da última cidade que abriga a resistência humana contra as máquinas no filme “Matrix” (Zion, em inglês). Qual o conceito por trás dessa música?


Karl Walfridsson: Essa história vem do livro de Oséias, que está na Bíblia. Acho que é o capítulo cinco. A história vem mais desse contexto do que do filme Matrix! Mas de qualquer forma, acho que a cidade de Zion no filme é inspirada na Bíblia.


Gustavo Maiato: O título do disco fala sobre outro lugar místico, a cidade da Babilônia. Quais aspectos religiosos e esotéricos a banda quis trazer para discussão?


Karl: A ideia foi inspirada basicamente no livro do Apocalipse. É sobre um chamado de Deus para as pessoas deixarem a Babilônia antes que o fogo caia do céu. Saia de lá para não ficar no meio do pecado. Isso que inspirou a música.


Gustavo Maiato: A música “The Last Cheek” tem uma mensagem bem interessante. Ela fala sobre aquela passagem em que Jesus diz para você oferecer a outra face em caso de uma agressão. E também fala sobre a história de Caim e Abel. Como esses dois assuntos convergiram?


Karl: A mensagem sobre o Abel é que em algum lugar da Bíblia é dito que o sangue inocente de Abel será derramado no chão pela justiça de Deus. Essa questão do Caim dialoga com o nosso disco “Blod”, de 2003. As pessoas falam sobre a marca de Caim como se fosse um tipo de maldição, mas se você olhar bem é como uma proteção. A pessoa fica sob jurisdição de Deus, ninguém pode tocar essa pessoa. Você ganha uma marca na testa que diz que você não pode ser morto por ninguém.


Nós, cristãos, somos pecadores, mas podemos ser sagrados aos olhos de Deus. Essa é a conexão com a marca do Caim. Se você olhar para mim, vai ver que eu pertenço a Deus. Qualquer injustiça que você fizer contra mim, você vai pagar por isso. É basicamente isso!


A música é sobre isso... Tem um limite para a paciência dos santos! As pessoas não podem assumir que vamos oferecer a outra face toda hora, temos apenas duas faces! A piedade de deus é infinita, mas nós somos apenas humanos.





Gustavo Maiato: Outra música que achei muito boa foi a “We The People”. Ela diz que precisamos assumir a culpa nas situações da vida porque temos sempre o poder de escolha. Você acha que tem um destino já traçado para todos nós ou temos o livre arbítrio de alguma forma?


Karl: Tem um contexto na música. Essa nossa culpa acontece quando a gente vende nossos direitos por pão e circo. Quando pegamos a rota mais conveniente e segura, simplesmente confiamos em algo externo... Nós colocamos a segurança em primeiro lugar, nos esquecendo da nossa própria liberdade. Dessa forma, nós perderemos as duas coisas.


Um dos pais fundadores dos EUA disse que “aquele que vende sua liberdade por segurança não terá nenhum dos dois”, algo assim. Então é por aí. Nada está acima da gente, só Deus. Não podemos ser escravos de ninguém.




Gustavo Maiato: O encarte do disco traz pequenos textos no início de cada letra. Como surgiu a ideia de colocar essas mensagens aí?


Karl: Eu vi isso em um livro uma vez e gostei da ideia! São trechos que resumem a letra e a música em apenas uma citação. Eu sou muito fã de Stephen King, isso é culpa dele! Ele sempre faz isso nos livros. Ele começa o capítulo com uma citação, por exemplo. Isso dá o tom geral do que está por vir.


Gustavo Maiato: Vocês iriam vir para o Brasil com o Demon Hunter em 2018. O que aconteceu? Os shows foram cancelados?


Rickard Gustafsson: O que aconteceu foi que duas semanas antes da gente viajar para o Brasil recebemos um e-mail do produtor brasileiro falando que o Demon Hunter precisou cancelar a turnê. Essa foi toda informação que recebemos! Parece que foi alguma questão pessoal deles.


Depois, falaram que os shows seriam reagendados e quem já tinha comprado ingresso iria continuar valendo. Mas desde então, não vimos esperança. Mas nós queremos muito ir para o Brasil um dia. Na época, ficamos muito tristes com o cancelamento. Nós ensaiamos igual uns malucos! Estávamos muito ansiosos, fizemos até alguns produtos de merchandising especialmente para o Brasil.





Gustavo Maiato: Falando sobre a história da banda. Quais você considera que sejam os pontos altos da trajetória do Pantokrator até hoje? Talvez um show especial ou um disco que marcou muito...


Rickard: Já estamos tocando por 25 anos. Isso é algo especial por si. Esse novo disco é o resultado dessa estrada que estamos caminhando esses anos todos. “Marching Out Of Babylon” é o melhor álbum que já fizemos na minha opinião. Não sabemos o que virá no futuro, mas se eu morresse amanhã, morreria feliz!


Karl: Mas se formos pensar em shows... O melhor que já fizemos acho que foi uma vez na Suíça. A gente tinha ensaiado para caramba para os shows no Brasil. Aí tudo foi cancelado. Esse show na Suíça foi um mês depois. Então estávamos muito entrosados. Graças ao Brasil, esse show acabou sendo o melhor que fizemos!


Gustavo Maiato: Algumas bandas dentro do metal são muito extremistas e preconceituosas contra as bandas com temática religiosa. Por que você acha que eles têm esse comportamento?


Karl: Temos consciência de que estamos no campo do inimigo. A cena cristã sempre esteve presente no metal extremo, acho que esse pessoal pensa que nós estamos no território deles.


Rickard: Pois é, acho que esse era o sentimento dessas bandas lá no passado. Pessoalmente, acho que o preconceito contra bandas cristãs diminuiu bastante. Pelo menos aqui na Suécia.


Gustavo Maiato: Qual você considera que seja o papel da música na sociedade? Pode ser uma ferramenta para ensinar e passar ensinamentos?


Rikard: Acho que é uma forma de arte muito importante, não é apenas entretenimento. É difícil colocar em palavras. É como se alcançasse a alma e o coração de uma maneira que não é qualquer coisa que consegue. Martin Luther King disse uma vez que a música é o mais próximo da voz de deus. Isso é verdade! É a medalha de prata para a música.


Karl: É nossa maneira de nos expressar e levar uma mensagem de esperança e liberdade.


Gustavo: Como foi a educação religiosa que vocês receberam na Suécia? Algum aspecto curioso que você gostaria de destacar?


Karl: A Suécia é um dos países mais seculares do mundo. Muitas pessoas são batizadas na Igreja aqui, mas é mais uma coisa cultural. Muitos têm uma educação religiosa também, não é algo obrigatório. Tem um aspecto histórico também, éramos um país muito pobre no passado. Diferentes movimentos, incluindo dentro da igreja, foram responsáveis por elevar a Suécia a um patamar de país civilizado.


Acho que a nossa educação religiosa particularmente foi feita por nós mesmos. Pegamos a bíblia e fomos ler. Sempre nos conectando com outros que acreditam na mesma coisa.


Gustavo Maiato: Poderia deixar uma mensagem para os seus fãs brasileiros?


Karl: Queremos voltar a tocar novamente o mais rápido possível!


Rickard: Queremos nos solidarizar com nossos amigos que estão sofrendo com o lockdown e a crise de covid. Rezem por todos, ligue para seu amigo, mostre amor.